27 de abril de 2011

Sacola: Bola da vez


Sacola: Bola da vez
Geocentelha 330

Campanha furiosa contra a sacola do supermercado. A meu ver, seu único defeito é o abuso no seu uso. Bastava estabelecer a cobrança para controlar o abuso; o que restasse, e que, concedo, pode até não ser pouco, seria mais fácil administrar. Em idos da década de 1980, membro do Conselho universitário da UFMG, participei de uma discussão inesperada, diria quase surrealista, dessas lançadas por alguém no uso da famosa “palavra livre”, concedida pelo Reitor usualmente ao final do expediente, esgotada a pauta.

O plenário pegou fogo. A maioria esbravejava contra a pretensão dos supermercados, que queriam cobrar por ela. Intervindo timidamente ponderei que a cobrança poderia conduzir as pessoas a uma conduta mais sóbria; pensava eu exatamente na questão ambiental mais direta e, com olhar geológico, na da sustentabilidade, ainda um tanto escondida na época. Se fosse voto seria vencidíssimo, tratado com paciência e compreensão por velhos amigos, e com certo desdém por outros de pensamentos muito diversos dos meus: “Queremos a sacola de graça”, era o brado retumbante.

Agora no país do tudo ou nada, a exemplo do famigerado Código Florestal, nada então! A próxima bola serão pandeiros contra os quais se investirá porque perturbam o silêncio noturno? Vocês acham que ganhamos com isto alguma dimensão especial de nação civilizada?



Belo Horizonte, 27 de abril de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo


14 de abril de 2011

Código Florestal


Código Florestal
Geocentelha 329

Respostas ao pedido abaixo de Apolo Heringer Lisboa:

Elenque 5 pontos, em ordem de prioridade, sobre o que considera mais importante numa discussão sobre o Código Florestal nesta conjuntura de mudança. Inclusive com perfil histórico e mundial se puder.

Ponto 1: Ausência de cultura traduzida na falta de dimensão pedagógica na forma de redigir a lei. Uma lei de ordenamento territorial precisa ter dimensão pedagógica na aderência das disposições ao objeto. Não existe nada no Código Florestal que indique essa aderência: Ele poderia ser aplicado a Marte e à Lua se esses astros tivessem água, que o desastre seria o mesmo. Naturalmente essa total falta de cultura acha que aplicar limites numéricos para determinar formas de tratar a terra não é um desrespeito a ela, mas é, e é o maior de todos. É uma forma humanamente arrogante de determinar formas de explorar a Terra que está apoiada evidentemente na ignorância, pedestal preferido da arrogância.

Ponto 2: Em nenhum ponto a lei recorre aos profissionais das ciências da terra para o estabelecimento final de critérios locais de uso do solo. É dizer que o Agrônomo, Eng. Florestal, Biólogo, Geólogo, Geógrafo, dentre outros, sabem menos que um remoto deputado em Brasília sobre aquele pedaço de terra atingido pela lei. Para onde vai a responsabilidade profissional, inclusive assumida em juramento? O profissional desobedece mais à lei se atende ao limite numérico contra todas as evidências locais, ou está, e estamos mesmo, traindo a confiança da população e aí sim cometendo um crime profissional a todos os títulos imperdoável? Se isto não for suficiente para estabelecer a inconstitucionalidade flagrante do Código Florestal, em qualquer das versões discutidas, eu não sei o que é inconstitucionalidade, depois de ter sido por mais de 4 anos Membro da Comissão de Legislação do Conselho Universitário da UFMG. Quem enquadrará o profissional que obedece à lei, mas trai o povo, ou o que, para não trair o povo, desobedece à lei?

Os pontos seguintes são estritamente técnicos

Ponto 3: Por que o tudo ou nada em relação às APP’s? explico com um exemplo. Encostas do leste/sul mineiro de média e alta declividade podem ser não recomendáveis para a enxada e o pisoteio, mas podem perfeitamente ser adequadas para forrageiras de corte ou para arborização comercial, que excluem o pisoteio e a enxada. O Código tem de ser minimamente flexível. O tudo ou nada é o fim do mundo em termos de lógica de ordenamento territorial.

E eu digo: Não estou à procura de mais desmatamento em termos líquidos, porque, a meu juízo, o Código Florestal é extremamente permissivo no total.

Ponto 4: Por que uma APP de topo a partir de 1.800 m de altitude? Imagine-se que o Brasil troque de posição com a América do Sul espanhola. Então somando as áreas acima de 1.800m de altitude no Chile, Argentina, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia  e Venezuela, sem falar da América Central e México, teremos por aí pelo menos um Peru ou uma Bolívia ou os dois juntos inteiros fora da atividade produtiva, inclusive culturas como a de Machu Pichu não teriam vez.

Um colega geólogo disse-me que eu era um chato porque, no Brasil, as áreas de altitude maior que 1.800 m eram insignificantes e não se estava perdendo nada por preservá-las. Lamentável equívoco desse meu colega, cabeça coroada da geologia nacional, porque, exatamente por serem diminutas essas áreas, é que elas deveriam ser visadas com o maior carinho possível em termos de ocupá-las com culturas e cidades numa experiência civilizatória que nos tornaria como nação mais experiente, mais irmã de culturas como as da América espanhola atual, da Ásia Central, das Rochosas, da alpina. É triste vermos como a nação não reage a absurdos civilizatórios como este. Chego a duvidar de sermos uma nação inteligente.

Ponto 5: APP’s marginais: Acho que devem existir, mas jamais limitadas por números rígidos, e devem também poder não existir, desde que profissionais no exercício de suas funções dêem solução diversa em certos casos. Por exemplo, essas APP’s ocupam faixas de terreno naturalmente irrigadas durante todo o ano, abrigando culturas que alimentam bilhões de pessoas (bilhões mesmo). Se implantadas a ferro e fogo como a lei nazifascista determina, o vaso fechado da sustentabilidade vai funcionar, e a agricultura (estou pensando no Nilo e Sudeste da Ásia) terá de irrigar terras mais altas de lençol freático mais profundo consumindo mais energia e aumentando custos, muitas vezes para famílias completamente destituídas de meios para fazê-lo).


Para completar eu gostaria de dizer como a lei determina um desastre ambiental como a erosão do solo no leste/sul mineiro: O pasto está em encosta de declividade 40o . O pisoteio promoveu uma degradação terrível dilacerando completamente o solo superficial. Ah, mas o proprietário não desrespeitou a lei; portanto não há crime ambiental. Quero dizer com isto que a lei virou um fim em si, dispensou a ciência, a boa técnica e os profissionais formados a peso de ouro pela população desamparada.

Não é por acaso que a discussão atual do Código Florestal, na falta absoluta de ciência verdadeira, descambe para imediatismos legítimos de cunho ideológico, corporativo e assim por diante. Miséria extrema de civilização é o que é este estado de coisas.



Belo Horizonte, 13 de abril de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo


11 de abril de 2011

Colecionadores de Água


Colecionadores de Água
Geocentelha 328

A água oscila entre escassez e abundância. O planeta não a perderá, porque a gravidade não deixa; na realidade, ele tem acréscimos de água capturada de cometas, por exemplo. Materialmente podemos ver o sistema Terra como um grande vaso fechado. O princípio do vaso fechado, que deveria ser ensinado em todo o mundo como o mais universal instrumento de gestão, apreensível por crianças de 5 anos, é usado intuitivamente por muitos, é claro, ou cientificamente, como na geologia, em que compõe o jargão dos estudos de metamorfismo. São comuns frases como esta: “Trata-se de transformação em vaso fechado”, diz o geólogo, referindo-se a determinada transformação em que as rochas da porção transformada não tenham trocado matéria com a região envolvente, mas apenas calor.

Aplicação do princípio do vaso fechado ocorre nos estudos da sustentabilidade relacionados com a água. A Terra é dotada de reservatórios de variável grau de conexão entre eles. O maior é o oceano global, dividido em compartimentos que se comunicam nas extremidades continentais e recebem nomes locais de oceanos e mares. Calotas polares e geleiras são grandes reservatórios, que, por conterem água congelada, dispensam a superfície plana. Os poros de solos e rochas constituem o terceiro grande reservatório. O quarto é a biomassa a que a água se agrega de várias maneiras. A água transita entre reservatórios, levando e trazendo nutrientes, poluentes, contaminantes e calor, manifestado por temperaturas. É por esta razão que lhe chamo componente itinerante do sistema geológico.

Para compensar oscilações sazonais, estocamos água de várias formas. Nas regiões desérticas e semi-áridas, precisamos de estoques plurianuais; nas de pluviosidade certa, mas concentrada em poucos meses, a estocagem faz-se para cobrir os meses secos. A melhor e mais democrática forma de estocar em qualquer contexto é nos solos, protegidos por vegetação, em terras altas (estoque proximal), mas cada litro de solo perdido por erosão ou arrastado é um copo de cerveja a menos de capacidade de armazenamento.

Desconhecedora das possibilidades geológicas do armazenamento proximal, a humanidade opta pelo distal em reservatórios de barragens (muito importantes quando necessárias). Estes contam com as desvantagens materiais de serem tardios em relação à fruição mais completa da água em terra, que chega a eles depois de erodir, inundar e matar; vulneráveis à evaporação e consequente aumento da salinidade; vulneráveis ao assoreamento. No plano da organização social são concentradores de poder. Muitos de seus detentores (estados, empresas, pessoas) são verdadeiros colecionadores de água. Pela inconsistência geológica da medida, a Transposição parece-me atender a interesses de colecionadores de água, e de poder.

Além de inúmeras soluções simples e democráticas, começa a era da devolução do solo à montanha para devolver à água seu melhor lugar.



Belo Horizonte, 30 de março de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.


30 de março de 2011

Atraso na preservação de nossa cultura e a situação crítica dos tombamentos

Colaborador da FIABCI/BRASIL (Federação Internacional das Profissões Imobiliárias) comenta a situação crítica dos tombamentos no Brasil em documento hoje publicado no jornal Estado de São Paulo e cita argumentos de geologia urbana de Edézio Teixeira de Carvalho. Veja abaixo.

Sérgio Mauad (*)

Raízes, base do sólido e saudável desenvolvimento de qualquer país, devem ser preservadas. Na sociedade, a memória histórica deve sempre se somar ao nosso instinto desenvolvimentista, balizando regras básicas do bom convívio social, em clima de harmonia entre hábitos e cultura regional, para um avanço saudável. A sabedoria de cada povo está em discernir o que deve ser tombado e preservado, e a que custo, sem impedir a evolução da natureza, que busca seu próprio equilíbrio, e também o progresso de uma nação. Não é exatamente o que vemos no Brasil.
Anos atrás, num congresso da Fiabci Mundial na Áustria, um painel de debates sobre tombamentos, para preservação do patrimônio cultural, mostrou-se especialmente rico em argumentos. Foram levantados prós e contras, ao se avaliar um efetivo tombamento. Ouvimos opiniões bem embasadas, de autoridades no assunto, mostrando como viabilizar tombamentos, o porquê de fazê-los ou então o porquê de não fazê-los em determinadas circunstâncias. Exemplo de apresentação.
Prevaleceram as opiniões que defendiam a preservação da história, desde que não se desequilibrasse financeira e economicamente o poder público nem os indivíduos ou empresas proprietárias dos imóveis a serem tombados.  
Chamou atenção debate fecundo entre representantes de dois países de culturas e idades diferentes, Japão e Canadá. O representante japonês defendeu a idéia de que o espaço urbano deve ser maximizado. Exibiu foto de um casarão histórico no centro da cidade e pediu atenção para a arquitetura da sua fachada. Apenas ela fora preservada, incrustada na fachada do novo edifício, moderno, em um painel rente à calçada. Dizia ele: “Não podemos sacrificar a transformação natural da cidade, que precisa atender seu crescimento orgânico, daí ter sido mantida apenas a fachada histórica, preservada com uma placa identificando e registrando sua memória.”
O representante do Canadá interveio mostrando que, para tombar um edifício, particular ou público, a primeira premissa a ser respeitada é que o país seja rico o suficiente para garantir sua conservação, manutenção e uso adequado daquele bem.
No Brasil, temos assistido a discussões sobre tombamentos carentes de visão assim mais abrangente. Refiro-me ao enfoque que leve em conta, sim, a sustentabilidade e a preservação ambiental, mas que não despreze esse dado concreto de suma importância: nossas cidades ocupam menos de 1% do território nacional.
Recentemente, o geólogo Edézio Teixeira de Carvalho expôs seu pensamento pela Internet sobre o tema, que reproduzo em parte aqui: “...não podemos criar uma cidade aleijada só porque um pequizeiro está no caminho. Daqui a 50 anos, o pequizeiro morre e a cidade leva seu aleijão até o final dos tempos, porque ela é a única obra humana que foi concebida por um lado para a eternidade e, por outro, exatamente para substituir a primeira natureza por uma segunda, em que componentes da primeira podem ter lugar desde que necessários, convenientes e conviventes.” E perguntava ele: “O que havia antes no local onde foi construído o Louvre de Paris?”.
Quem olha uma planta de São Paulo com imóveis tombados ou em fase de tombamento e fixa sua atenção nos trezentos metros em volta, fica surpreso. Sua ocupação e o uso do solo são restritos, impondo-se como verdadeiros quistos urbanos desafiando qualquer plano racional de diretrizes para o desenvolvimento da área.
A condição deplorável em que se encontram vários imóveis tombados como Patrimônio Histórico, alguns deles, inclusive, invadidos, evidencia a ausência de políticas públicas consistentes para garantir a preservação da memória. Afinal, vale para o urbanismo o mesmo que se aplica à cabeça das pessoas: mente vazia é oficina do diabo. Melhor dizendo: lugares que não têm uso produtivo acabam sendo ocupados por quem não tem nada a oferecer para a cidade; é o risco latente de novas Cracolândias. Na questão dos tombamentos, abraçamos o atraso.



São Paulo, 30 de março de 2011.

(*) Sérgio Mauad é colaborador da Fiabci/Brasil, ex-presidente do Secovi-SP e presidente da SMDI-Desenvolvimento Imobiliário. 
Enviar comentários para sm@sergiomauad.com.br  



Fontes:
Jornal Estado de São Paulo [consultado em 30 de março de 2011]
http://sergiomauad.com.br/post.php?ID=19 [consultado em 03 de dezembro de 2014]

16 de março de 2011

Lições do Japão

Lições do Japão
Geocentelha 326

São admiráveis as lições do Japão, mas nem todas estão à vista. A mídia, que consultou especialistas, não expôs todas elas. A intensidade do terremoto, não a magnitude, usada para comparação, que atinge um dado local, é inversamente proporcional ao quadrado da distância do local considerado ao foco (hipocentro). Certo ou com ajustes a fazer, não faz sentido estarmos agora preocupados com a profundidade de 24 km do foco, que só teria sentido para dizermos da intensidade com que chega a onda de choque ao epicentro. No caso de Sendai, cidade mais atingida, a 130 km do epicentro, e este a 24 km do hipocentro (profundidade) a intensidade (ordem de grandeza) deve ter sido da ordem de 3,35% da intensidade no epicentro. Considerando a distância para Tóquio, de 370 km, a intensidade aí teria sido de 0,4% da intensidade no epicentro! Portanto, o terremoto, mesmo tendo sido muito grande, não pôs à prova, de fato, as estruturas em Sendai e muito menos em Tóquio.

Daí resulta a consequência mais global da localização do terremoto: Ela fez que os principais danos diretos  tenham ficado por conta do tsunami, o que afinal foi visto nas imagens.

O que vi de mais positivo das lições que nos passaram os japoneses: As autoridades deixaram evidente que valorizam mais a Vida que a Propriedade, sendo o indicador mais forte a quantidade enorme de veículos arrastados, portanto guardados em lugares mais expostos ao tsunami que as residências, mas a posição destas não me convenceu inteiramente pelo que direi mais à frente. Os barcos das marinas, confesso não saber bem como proteger mais eficazmente. Neste aspecto, fica muito claro que a baixa orla japonesa presta-se muito bem ao plantio de arroz e hortaliças, cujo risco fica limitado à perda de safra ou à ocorrência fortuita. A disciplina geral com que se comportou o povo nas primeiras horas pareceu-me um comportamento de quem está convencido (valor cultural) das orientações muitas vezes treinadas que de uma obediência cega.

A outra lição importante é a forma logicamente bem estabelecida de fixar prioridades: Na prevenção reduzir ao mínimo a exposição ao risco previsível em relação ao fortuito. Em orla sujeita a tsunamis é claro que a habitação à beira-mar em cota baixa será certamente atingida, podendo isto ocorrer com pessoas dormindo; banhistas na praia ou lavradores no arrozal podem correr para plataformas resistentes ou lugares mais altos em resposta aos avisos (risco fortuito e sobre pessoas em vigília).

A construção sismorresistente, não testada, não faz menos temerário o gigantismo de Tóquio e não percebi uma cota mínima realmente segura na urbanização da orla, que poderia ter salvo metade ou mais dos que morreram no tsunami de 2004.

Finalmente, diante do sismo do Haiti e do maremoto que atingiu Lisboa em 1755, originado no contato das placas africana e européia, acho imprudente considerar o nosso Atlântico tão isento.  

  
      
Belo Horizonte, 13 de março de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo.



Comentários do autor

Amigos: Os editores e jornalistas em geral conhecem uma lei muito parecida com as leis físicas. É mais ou menos isto: O volume de matéria jornalística publicada sobre um fato notável é inversamente proporcional ao tempo passado do fato. Por esta razão apressei-me  em enviar ao Editor de Opinião de O Tempo reflexões preliminares sobre o ocorrido no Japão, mesmo correndo o risco de ser em parte desmentido. Procurei fazê-lo tentando cobrir um campo, que considero importantíssimo, das medidas de prevenção do risco, que, a meu juízo, tinham sido pouco exploradas pela própria imprensa e pelos analistas especializados (vi as opiniões e declarações de uns 15). Atualizando minhas avaliações para o que vi até a manhã de hoje (16/03/2011), tenho tristemente confirmado o que tinha apontado como uma dúvida, que parte significativa da orla certamente foi temerariamente ocupada por residências; vi muralhas construídas na praia num dado local; mais do que prevenção no caso, parece-me imprudência dos japoneses e erro de filosofia de urbanização; eu, em hipótese nenhuma, colocaria minha residência a uma altitude menor que pelo menos 20 metros no Pacífico e no Índico, assim evitando, com minha família, o risco estatisticamente significativo; poderia eu então ser atingido na praia, como banhista, ou plantador de arroz ou hortaliças, mas aí seria atingido em estado de vigília, em ocorrência fortuita (a circunstância probabilisticamente excepcional de eu estar na praia na hora do ocorrido). Não falei da questão nuclear porque não sou conhecedor da parte nuclear dela, mas o planejamento da prevenção, definitivamente, agora já não me convence, estando os japoneses trabalhando com dois recursos improvisados, além dos três que falharam surpreendentemente, sem terem no caso enfrentado intensidade alta no local, quais sejam o bombeamento direto de água do mar e agora esta de derramar água sobre os reatores a partir de helicópteros, lembrando-me muito bem, contado a mim por um geólogo russo, a forma inicial de sepultar o reator de Chernobil ----- por meio de massa de concreto lançada de hilicópteros. Tanto quanto torço para que as fatalidades não cresçam muito, torço para que a humanidade passe a considerar que, a rigor, não há diferença entre perder vidas pelo hálito pestilento da morte nuclear, pela dengue, ou pelo acidente geológico para o qual se tenha deixado de tomar medidas preventivas cientificamente embasadas e lógicas.

A diferença entre elas é que, por desconhecimento de outros fatores, possam levar a decisões de governo equivocadas.

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo

15 de março de 2011

Seminário sobre APPs em áreas urbanas.

Caros colegas, coloco a disposição de vocês palestras que discutem APPs em áreas urbanas. Realizada em Belo Horizonte no Centro de Educação Ambiental - CEDAM/SMMA, em dezembro de 2010.

Os links para download são:
(Apresentação Joaquim Martins)

(Apresentação Edézio Teixeira)

(Apresentação Francisco Freitas)

(Apresentação Antônio Pádua)

4 de março de 2011

O Método Geológico

Caros colegas, coloco a disposição o texto "O Método Geológico Aplicado à
Implantação de Aterros de Resíduos", que trata da recuperação de áreas degradadas pela disposição controlada de resíduos de construção e demolição.


26 de fevereiro de 2011

O Paradoxo paulistano

O Paradoxo paulistano
Geocentelha 325

Alguém duvida de que São Paulo é a maior concentração de conhecimento e inteligência no Brasil? Maior concentração de poder econômico? Maior aparato institucional de universidades e centros de pesquisas? De que São Paulo tem a maior experiência de construção viária na serra do Mar? Eu não! É claro que, com exceção do último qualificativo, não desprezando outras experiências viárias na serra, São Paulo tem tudo isto a mais por questão de proporcionalidade populacional, turbinada por desenvolvimento mais consolidado. E agora? São Paulo pode resolver ou liderar a solução dos problemas urbanos da serra do Mar? São Paulo tem experiências comprovadas em Santos, Ubatuba, Caraguatatuba, Cubatão. A resposta então seria afirmativa. Pode, mas poder não garante que o consiga. E a dúvida não surge por questão puramente técnica ou de arranjo institucional (política), mas enraizada profunda e sutilmente no âmago da mais delicada das ciências aplicadas, a da gestão.

Corto agora para a primeira entrevista do saudoso Mário Covas, governador, a que assisti pela televisão ao assumir seu primeiro mandato. Respondeu a uma pergunta assim: “A solução do problema do Tietê é conceitualmente simples, concentrando-se essencialmente em alargar e aprofundar a calha”. Não obstante os esforços aplicados, a solução prometida parece um poente, que se aproxima de nós à medida que tentamos afastar-nos dele antes que as trevas nos cubram. Em janeiro vejo, na televisão, o governador paulista atual declarar: “Vamos dar continuidade à construção dos piscinões. O piscinão é a várzea moderna”. Talvez esteja aí uma ponta da explicação do paradoxo paulistano, pois quem faz a nova Imigrantes, plena de exemplos de boa técnica, e muito mais do que isto, da melhor filosofia concepcional e construtiva, tem capacidade de sobra para ter resolvido o problema das inundações de São Paulo, que ameaça sobreviver ao século 21! Não o fez porque não tomou conhecimento de descrição geológica do problema e muito menos nela inspirou a solução. O problema não é simples como disse o primeiro, e não se compadecerá nem com a sua solução e muito menos com a várzea moderna do segundo.

Na rodovia a liberdade de pensar na aplicação do conhecimento e da inteligência em busca da melhor solução é ampla e notória. Cidade é diferente, é construída dia a dia por muitos agentes mal coordenados. Precisa certamente de regulamentos especiais, que, contrariamente ao que fazem os atuais, estimulem o uso do conhecimento e da inteligência, na busca dos terrenos mais seguros para a habitação, dos meios mais eficazes de dispor e imobilizar as massas geológicas e de dar à água lugar e condições de entrada e de saída no sistema geológico conforme a sua feição. Sem o uso do patrimônio intelectual, formado a duras penas, agora não só o dos paulistas, o dinheiro do pré-sal e supercomputadores rolarão na lama como os matacões da serra.   


       
Belo Horizonte, 04 de fevereiro de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho

Eng. Geólogo.

Manifesto de geólogos de Minas Gerais sobre a gestão do risco geológico

Este documento foi escrito por Cláudia de Sanctis Viana, Edézio Teixeira de Carvalho, Luís Bacellar e Maria Giovana Parizzi, geólogos, presentes na sede da empresa GEOLURB Geologia Urbana e de Reabilitação Ltda, à avenida Getúlio Vargas, 668 Sala 1201, em Belo Horizonte, todos geólogos, em reunião secretariada por Fábio Henrique Dias Leite, também geólogo. Participaram da elaboração do documento os também geólogos Eduardo Antonio Gomes Marques, Frederico Garcia Sobreira e Leonardo Andrade de Souza, mediante o envio de contribuições prévias, todos sócios da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental ABGE. Todos estiveram por diversas ocasiões e canais em conexão com a comunidade geológica dos vizinhos estados de São Paulo e Rio de Janeiro acompanhando e participando das confabulações em torno dos catastróficos episódios de deslizamentos de terras, corridas de lama e inundações ocorridos na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, em especial nas cidades de Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis; de inundações que mais uma vez atingiram duramente a capital e outras cidades de São Paulo e cidades da região Sul do Estado de Minas Gerais, atingidas também por grandes inundações.

Manifestam, portanto: Irrestrita solidariedade às comunidades atingidas, pertencentes ou não aos domínios geográficos citados; encontram-se em permanente comunhão com todos os esforços em desenvolvimento nos citados centros e em outros espalhados pelo país, que objetivem o esclarecimento da sociedade brasileira a respeito de aspectos geológicos condicionantes ou determinantes dessas ocorrências catastróficas; participam da tomada de posição em relação a eventuais omissões de órgãos de governo que tenham contribuído para a maior gravidade das consequências; encaminham sua contribuição em direção a drásticas mudanças nos procedimentos das autoridades da União, Estados e Municípios em relação à gestão do RISCO GEOLÓGICO em suas diversas manifestações.

Estando cientes de que episódios como os aqui tratados ocorrem regularmente no território brasileiro, de longa data, inclusive já com cobertura abundante da imprensa, a exemplo dos de 1966/67, atingindo o Rio de Janeiro e a região serrana fluminense, os signatários não reconhecem relação de causa e efeito necessária entre mudanças globais do tipo aquecimento antrópico e esses episódios.

Reconhecem, todavia, como fatores do aumento da gravidade das conseqüências desses episódios:

  •  O crescimento rápido da população urbana em parte proveniente de migrações interregionais;
  •  os procedimentos eminentemente burocráticos dos processos de parcelamento e uso do solo, baseados em legislação inadequada e em parte na inobservância ou equivocada interpretação da lei;
  •  a ausência quase total de serviços geológicos contínuos nas esferas estaduais e municipais;
  •  as graves deficiências de formação cultural básica, caracterizadas por generalidades de natureza ambiental sem fundamentação geológica;
  • o profundo desencontro entre a Humanidade e a Terra, proveniente dessas deficiências, que impedem a consideração de que esta é constituída de componentes permanente (arcabouço mineral), transitório (flora e fauna) e itinerante (água), cada um deles idealmente devendo ter tratamentos inerentes a suas naturezas e estados de agregação;
  •  em relação ao componente itinerante acima, a gestão urbana da água praticamente reduzida às dimensões suprimento e drenagem, impedindo a exploração de possibilidades geológicas fecundas, de resultados comprovados, como a solução consorciada de disposição geologicamente orientada de resíduos inertes com o controle do escoamento pluvial urbano;
  • as graves carências de cunho sócio-econômico de grande parte da população;

Diante do acima exposto, e considerando as amplas possibilidades de contribuição do conhecimento geológico para que sejam drasticamente reduzidas as graves perdas materiais e humanas que acidentes geológicos previsíveis têm provocado, resolvem, assim, propor à sociedade brasileira em geral e às autoridades públicas em particular, dos poderes legislativo, executivo e judiciário, no que couber a cada um, as seguintes medidas:

1)      Determinação de remoção, em prazo a ser tecnicamente definido, de assentamentos geologicamente considerados inviáveis, com reassentamento em áreas reconhecidas como seguras em estudos geológicos adequados nos termos da Lei 6766/79;

2)      Implantação de intervenções geotécnicas e de urbanização nas áreas onde as situações de risco forem passíveis de minimização;

3)      Estabelecimento, em lei, de indenização em rito sumário por morte comprovada em acidente geológico, tomando por referência os níveis de indenização praticados internacionalmente, e por perdas materiais igualmente comprovadas indenização em rito normal, baseando-se em  valores de mercado, e condicionada à comprovação de inexistência de dolo por parte dos postulantes, sujeito às penas da lei;

4)      Revisão da legislação de ordenamentos territoriais, especialmente do Código Florestal, quanto à sua aplicação ao meio urbano, considerada incompatível com a natureza particular da Cidade, em especial por dispensar e até impedir a aplicação contextualizada do conhecimento geológico, além de gerar a formação de corpos de água potencialmente insalubres e estimuladores da propagação de vetores;

5)      Implantação de um sistema nacional de controle do risco geológico centrado no governo Federal, com ramificações estaduais e municipais vinculadas, à semelhança do Sistema Único de Saúde SUS, do qual constem, obrigatoriamente, pelo menos:


  • Programa articulado entre União, Estados e Municípios de levantamento geral de todos os documentos da cartografia temática relacionada, existentes no Brasil, Estados e Municípios e sua catalogação e geração de arquivos digitais para consulta de modo a comporem um banco de dados acessível aos encarregados de estudos locais;
  • Organização de banco de dados meteorológicos, climatológicos, de cartografia básica e temática em escalas reais apropriadas aos estudos regionais e locais, tornando-os, não importa sua fonte geradora, exceto os de confidencialidade garantida por lei, disponíveis para a consulta técnica local;
  • Estabelecimento de linhas de pesquisa geral ou vinculadas a particularidades regionais em programas de cooperação com universidades e centros de pesquisa conforme as suas vocações naturais e qualificação dos respectivos recursos humanos;
  • Criação de serviços geológicos estaduais; nos moldes dos já existentes, criação e aparelhamento de departamentos relacionados ao risco geológico conforme as suas manifestações regionais vinculadas aos aspectos geológicos, fisiográficos, vegetais e climáticos;
  • Garantia a todos os municípios de pequeno porte territorial e de população, por agrupamentos municipais, do serviço geológico local em permanente conexão técnico-científica com o serviço federal e o estadual.
Finalmente os signatários conferem o necessário realce ao caráter complementar e organicamente integrado das medidas propostas, inclusive a indenização em rito sumário, cada uma delas essencial ao melhor êxito do programa em benefício da população brasileira.





Belo Horizonte, 16 de fevereiro de 2010

Cláudia de Sanctis Viana
Edézio Teixeira de Carvalho
Eduardo Antonio Gomes Marques
Frederico Garcia Sobreira
Leonardo Andrade de Souza
Luís Bacellar
Maria Giovana Parizzi
Fábio Henrique Dias Leite – Secretário


16 de fevereiro de 2011

A Imprensa e a cobertura Ambiental

Caros amigos, coloco a disposição de vocês entrevista feita na Rede Minas.
O acesso ao material, dividido em duas partes, é feito pelo link abaixo.
Saudações,



Edézio Teixeira de Carvalho.