20 de janeiro de 2017

O repto do geólogo

O REPTO DO GEÓLOGO
GC 411 O repto do geólogo

Convivo com algumas frentes do campo geológico que se projetam sobre as ciências parcelares da matéria (física, química, biologia) que formam a infraestrutura científica para a superestrutura geológica. Movimentaram-se no país leis de ordenamento territorial no sentido de conferir ao território critérios de gestão adequados à preservação da sustentabilidade natural. É o Código Florestal a principal dessas leis. Não pensaram os membros do poder legiferante que o resultado poderia ser o que vemos, na imagem do dia. Nela vê-se campo de voçorocas em Cachoeira do Campo em 04/05/2016. Em 2002 a imagem é semelhante, mas, para quem tem olhos de ver, ainda menos desenvolvida, mais intensa, com os leitos dos córregos saindo lamacentos das nascentes tecnogênicas. Tratando-se essas formas tecnogênicas de conformações doentias do território, é justificado compará-las com as doenças do corpo humano, em relação às quais que faz a sociedade culta senão chamar o médico?

Imagem do dia: À esquerda pequeno conjunto de voçorocas em Cachoeira do Campo. Isoladamente parece grande, mas em verdade é pequeno diante do campo de voçorocas de que faz parte. Ele é apenas o contido no retângulo amarelo. A imagem é de 04/05/2016. No campo maior veem-se outras grandes voçorocas ativas e outras grandes voçorocas inativas ou em fase de inativação. Somando tudo podemos ter até 60% da área de solo perdido, note o leitor que permanentemente, definitivamente, porque o solo é o principal recurso geológico da sustentabilidade, e não renovável. Destruição territorial determinada por lei, eis a verdade.
Seria de perguntar por que essas feições continuam lá, como chagas territoriais, quando já teriam de estar curadas. Afinal, não fosse a liberdade de intervenção impedida pela Lei, teria ela consolidado o conhecimento empírico nos casos simples e o técnico-científico adequado teria alcançado o cidadão comum, esse mesmo que sabe das variadas doenças do corpo humano e das formas de tratá-las, porque o ato frequente gera exemplos, enquanto sua proibição não gera exemplos.
Desenvolvi forma de reabilitar a voçoroca a partir da reflexão; apliquei-a a uma voçoroca nascente na encosta a montante do que era o estacionamento do ICB, a poucos metros da Reitoria da UFMG (agradeço à Pro Reitoria de Planejamento e Prefeitura da UFMG, por receberem o projeto e aplicarem as intervenções que o integravam em 1989). Voçoroca nascente, seu desenvolvimento não alcançara o lençol freático, inexistindo, por falta de nascente, impedimento legal quanto à intervenção. Fiquei exultante com o resultado, pensando que haveria uma corrida nacional pela inovadora forma de reabilitação. Estava enganado, mas cerca de 5 anos mais tarde, em voçoroca de Contagem, contando com a clarividência da autoridade local, foi implantado o projeto de reabilitação de voçoroca clássica, com a famigerada nascente ao fundo. A intervenção, coroada de êxito, atraiu a atenção do geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos de São Paulo, que o publicou em um de seus livros[1]. Mais uma vez pensava que a inovação triunfaria. Estava de novo enganado. Até hoje continua o Brasil assim: Doença do corpo humano? Chame-se o médico. Doença territorial, que teve por consequência o surgimento de nascente? Afaste-se o geólogo!
Vimos há um ano o solo que sai da imagem do dia no leito raso do São Francisco, cuja baixa vazão atual é atribuída à falta de chuvas, mas razão tão forte, senão maior, está na perda de solo levado pelas voçorocas intocáveis por estarem associadas a nascentes, que, diferentemente das naturais, são problemas graves de degradação do solo levando água precocemente ao mar, e com ela o solo, principal fator geológico da sustentabilidade, que guarda a água, sustenta a flora, alimenta a fauna.
Certamente por ignorância parcial minha, da evolução do Código Florestal, considero que não se baseia ele em nada que se poderia chamar de constitutivo, de modo que, embora fácil de compreender seu zoneamento, ele agrupa zonas que deveriam estar separadas, e separa zonas que talvez merecessem estar agrupadas. Em exemplo do primeiro caso, como não separar as margens de um córrego de vazão de base 1 litro/s de um ribeirão de vazão maior que 1.000 l/s, e de um rio de 100.000 l/s? Deixo ao leitor a reflexão que poderá levá-lo à compreensão autônoma, mas digo que o afastamento de um plantio de inhame (p. ex.) além de 30 metros da margem do córrego pode colocar o inhame a exigir irrigação que custe tempo e dinheiro de outra forma desnecessários. Lembro ainda que um dos mais produzidos cereais, o arroz, no Sudeste Asiático, é plantado dentro d’água! Separação que chegou a ser feita ou tolerada é a que deveria ser feita entre Campo e Cidade. Esta é segunda natureza muito especial, construída pelo Homem, podendo ser implantada, dependendo de aspectos físicos e culturais da região, sobre palafitas, flutuantes como em cidades holandesas, ou em ilhas oceânicas artificiais, criadas com a areia do deserto.
Vou ao caso mais absurdo da legislação de ordenamento territorial. Trata-se do conceito de nascente associada a voçoroca até 2.012, e depois da descaracterização dessa modalidade, a manutenção da exigência de delimitação de APP em torno do olho d’água do que seria o centro da nascente. Em qualquer dos casos há de considerar-se aí a existência de foco doentio do terreno local, algo como um furúnculo territorial. Vamos agora a mais uma analogia com o corpo humano: Esse foco territorial doentio é como uma chaga no corpo humano, de maior ou menor gravidade. Quanto a esta, como reage a sociedade culta? Submete o caso ao médico. Quanto ao foco de erosão da voçoroca nascente ou evoluída, a sociedade nada faz por existir ali uma APP. Assim não poderá o profissional aproximar-se da doença territorial para tratá-la, como é chamado a agir o médico no caso da enfermidade humana.
Concluo: Lei impede tratamento oportuno, devido e urgente das feridas territoriais. Isto significa que nas voçorocas, que vemos às centenas de milhares pelo país, a água retorna precocemente ao mar e, não fosse desastre ambiental bastante, ela o faz arrastando milhões de toneladas de terra, que armazenariam em seu local de formação muita água, que faltará, cada vez mais, à vazão de base de rios como o São Francisco, porque o solo, lembrem-se os legisladores, é recurso natural não renovável (e que, pasmemos juntos, no fundo de um rio, de uma represa, ou do pantanal, ele toma o lugar da água). Um dia ele acaba e sem ele a chuva escoa instantaneamente, muitas vezes sendo esta e não a escassez de chuva a principal explicação de rios secos.
Falamos, portanto, de lei claramente inconstitucional, a merecer a ação das associações científicas da área, com apoio da OAB, CONFEA e CREAs, dos sindicatos profissionais e das instituições de ensino, que veem seus ex-alunos impedidos de exercer ensinamentos que elas lhes proporcionaram para que possam pensar as feridas da Terra. Dano maior ainda pode-se ler em GC 367 Sem exemplos.
Estou certo de que, se provocada oportunamente pela sociedade, a ilustre ministra, com sua notória sensibilidade, socorrerá a terra que a viu nascer, pautando a matéria como ADIN para decisão do STF.

Belo Horizonte, 26 de setembro de 2016.

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Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo


[1] CARVALHO, E.T. (2002). Reabilitação de uma boçoroca em Contagem – MG: In: Santos, A.R., Geologia de Engenharia – Conceitos, método e prática, Caso 5, p. 51-55. ABGE/IPT, 222pp. São Paulo, SP.

A ministra e os soberbos titulares

A MINISTRA E OS SOBERBOS TITULARES

GC 410 A ministra e os soberbos titulares

Só conheço a ministra por seu desempenho nas sessões do Supremo. Por essas e especialmente por entrevista dada no dia antecedente à sua posse, fiquei com a quase certeza de que ela leu Os soberbos titulares, poema integrante do Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles. Com outra certeza fiquei de que é a mais importante cidadã brasileira da quadra que atravessamos.
Se assaltarem nossos governantes e parlamentares disposições honestas de arrumarem nossa constituição, penso que contarão com disposição favorável do Supremo Tribunal, tendo este mais uma oportunidade de voltar sobre equívoco reconhecido, responsável pela pulverização do nosso quadro partidário, colocando-o com número suficiente para acolher as tendências ideológicas fundamentais entre 5 e 10 partidos políticos. Por que penso assim? Por causa de uma expectativa de amadurecimento da sociedade brasileira proporcionado pela crise atual, amadurecimento este que consiste em valorizar o que foi feito de bom nos últimos governos em termos de inclusão social, mas certamente rejeitando o vórtice venezuelano.

Imagem do dia: Dendrites em quartzito de São Tomé das Letras-MG, “invisíveis” quando dispersas na calçada, mas extremamente instrutivas quando agrupadas revestindo muros ou agrupadas no piso.

Acho que precisamos de dar mais atenção à água; aliás, não só nós o Brasil, mas a maior parte da humanidade, que vive cometendo equívocos a respeito dela, a meu juízo por desconhecer ou desconsiderar característica fundamental da água, qual seja a de ser componente itinerante do sistema geológico. Que significa isto? Algo que acontece com ela, de certo modo “negando”, apenas aparentemente, fato enunciado pelo físico: “dois corpos não podem ocupar simultaneamente o mesmo lugar no espaço”. É verdade, mas, tirando partido do caráter fluido, a água penetra materiais porosos, como o solo, principal fator geológico da sustentabilidade, e rochas, em fissuras planas como no caso acima em que a água com sólidos em suspensão ou solução penetra e sai, deixando uma pegada de material sólido como as magníficas dendrites da figura acima, que lembram delicadas chinesices. E o solo ostenta a condição de principal fator geológico da sustentabilidade (não renovável senão no ilimitado tempo geológico) porque oferece acesso à água, mas ela não entra e fica: ela entra e sai, às vezes deixando belo rastro, como se vê na imagem do dia. Por outro lado a saída da água das terríveis nascentes das voçorocas em tempo chuvoso, não deixa o solo para trás: Arrasta-o ao longo do Velhas para destruir o São Francisco.
Jamais para sugerir à Ministra uma rota de conduta, mas para apontar um problema territorial que toca profundamente a sensibilidade dos mineiros, a salvação do São Francisco depende de revisão profunda do código Florestal quanto ao conceito de nascente, e a outras categorias territoriais nele presentes, especialmente nas suas aplicações às áreas urbanas: São símbolos dessa destruição territorial: As nascentes das voçorocas de Cachoeira; as capivaras descontroladas da Pampulha, por falta do predador natural, afastado pela lei, que vi também em Holambra e Blumenau, e a árvore assassina, que pôs a seu serviço a cidade, ao invés de ser exatamente o oposto.
E ouso repetir, da Geocentelha 408, com a máxima vênia do leitor:   “Recorro então ao mestre do Direito, pedindo humildemente ao parlamento que pare de bloquear a ciência sob  o peso insuportável de lei mal feita: “Não se pode impedir sob nenhum ângulo que a ciência avance ...” Juiz Carlos Alberto Menezes Direito,  Ministro do Supremo Tribunal Federal, como candidato indicado para o cargo, dando resposta ao Senador Antônio Carlos Valadares na sabatina de 29/08/07 na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal sobre regulamentação de pesquisas na área médica.
Recorro também a J. Barreiros Martins Prof. catedrático emérito jubilado da Universidade do Minho) em seu artigo "Respigos da situação portuguesa e da situação europeia" ... “Porém, um governo, seja ele qual for, quando aplica uma pancada (decisão) a um “sistema humano” (o povo português ou outro), essa pancada não surte o efeito desejado pelos governantes, pela simples razão da costumada falta de senso e qualidade dessas acções, algumas delas “contra natura”. Muitas vezes essas acções até vão contra recomendações dos técnicos e cientistas nomeados pelo próprio governo, esquecendo-se os governantes que “a Ciência e a Técnica dizem o que é de prever”. E quando o governo executa o contrário, as leis da Ciência, como são as da Economia, esmagam todos os súbditos, só escapando os que trabalham na escuridão, e são muitos…” Diário do Minho em 09-07-2016.”
Como diria minha saudosa mãe sobre a Ministra: “Deus a conserve”.


 

Belo Horizonte, 15 de setembro de 2016.
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Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo


O São Francisco e o Danúbio

O SÃO FRANCISCO E O DANÚBIO

GC 409 SÃO FRANCISCO E DANÚBIO

Por idos de setembro nos idos dos baixos anos 50, Zé Bento, Dendéu e Mário, entre por-do-sol e escurecer, pela altura da novela de rádio tocado a roda Pelton, picavam fogo no dorso do elefante, pode-se dizer exatamente pelo fio do lombo da grande encosta da margem direita do Gualaxo, exatamente como o perfil de elefante deitado. Surpreendente a capacidade de estender simultaneamente linha de fogo contínua pela crista de mais de quilômetro de extensão. Do lado de cá, diante das sombras e fumaças, caíam resíduos de folhas leves de capim queimado, enquanto na novela o tiroteio prosseguia; amanhã as cinzas marcarão os rastros dos que cuidarão das vacas e bezerros.
O Gualaxo (i guaraxuê, ou o poço do caburé quebrado, obtido de autor neste momento não lembrado) de setembro era azul marinho, nas vésperas de receber enxurradas encorpadas pelos sulcos dos arados, e tornar-se emissário barrento da erosão que antecedia o florescer do milho, que deveria estar capinado até 22 de dezembro, do contrário, segundo a tradição local, o Tomé passaria pela roça, e era prejuízo cer-to. Hoje a margem direita tem biotitagnaisse mais exposto que em 1950, coqueiros, palmito, e mata secundá-ria. Sem moradores não mais produz um grão de milho (profecia realizada de Sá Maria Gabriela?). Hoje rio mais magro e mais limpo.
O que é o São Francisco senão uma multidão de gualaxos? Vejamos numa imagem do dia comparação de débitos entre o Tocantins e o São Francisco. Não sabendo a origem, nem tendo dados com-parativos, não sei se O São Francisco é, de fato, tão mesquinho.

Vamos, entretanto, por outro caminho, porque urge falar um pouco de outras formas de comparação. A famigerada caixa d’água do Brasil, que, por outras razões, chamei de toda rota, (numa visão geograficamente mais larga) abastece o rio Grande, e, portanto, o Prata, o Paraíba do Sul, o Doce, O Mucuri, o Jequitinhonha, o Contas e, salvo algum esquecimento, o próprio São Francisco. Se o dado comparativo acima está correto, pelo menos em ordem de grandeza, seria uma razão a mais para justificar a posição contrária à transposição construída e divulgada pelo Projeto Manuelzão. Pessoalmente sempre considerei transposições uma medida complicada, não só por seu impacto ambiental mais visível, mas, principalmente por um direito fundamental do cidadão residente na parte atingida pela transposição, portanto a jusante do ponto de derivação: é um efeito de sentido territorial, quase tanto quanto a tomada do próprio território. Outro efeito que em certo momento apontei, já começou a multiplicar-se. Com efeito, transposição tornou-se algo juridicamente admissível, quando deveria ser cláusula pétrea da constituição territorial descrita em constituição das nações. Já pensaram se um país das cabeceiras do Amazonas resolve fazer uma grande transposição para o Pacífico com o fim de produzir algumas Cubatões de energia elétrica?
Antes de saltar para uma comparação europeia, digo que uma das maiores surpresas que tive foi presenciar uma cheia do Tejo em 1979, que fez o rio, de porte semelhante ao Doce, na altura de Colatina alcançar largura de nada menos que 70 quilômetros na região chamada Ribatejo, a montante de Lisboa. (Lembro-me, a propósito, de que em comentários a respeito um colega meu, de lá, bem humorado, disse: “Não se assuste, porque temos outros dados amazônicos; afinal, não sabes que Cascais é o ponto em que a ribeira de Atrozela se une ao Tejo para formar o Atlântico?”.
Belo Horizonte, mesmo não sendo ribeirinha direta do São Francisco, é a única capital da bacia, e, com a Região Metropolitana, a maior concentração populacional dela. O Danúbio é rio de muitas capitais, que tem, além de Viena, Bratislava, Budapeste, Belgrado, não contada Bucareste, ainda na bacia, embora não ribeirinha.
Acho que esta é a grande diferença entre o São Francisco e o Danúbio. Com efeito, é como se a jusante de Viena, próxima da cabeceira como Belo Horizonte, não houvesse mais centros urbanos de populações equivalentes a impor demandas e sediar a nucleação de políticas estaduais de desenvolvimento da bacia. Lá, além dessas capitais, há países e não estados.
Diante de tal contexto político, as diferenças físicas, certamente importantes (geologia, clima, com cheias de degelo dentre outras diferenças), não são relevantes. Esse mundo físico oferece até similaridades, como recente impacto de ruptura no sul da Hungria de barragem de rejeito de mina de alumínio, levando contaminantes ao baixo curso do delta, onde é preservada a luxuriante mata de um patrimônio cultural da Humanidade. A ocupação humana é também incomparável, com nada menos que 80 milhões de habitantes e um reticulado extremamente denso da pequena propriedade rural na bacia do Danúbio.
Não tem o Danúbio represamentos com grandes lagos como o de Três Marias e o de Sobradinho, que, notemos, talvez nem sempre funcionem tão bem como regularizadores de vazão quanto deveriam, algo que pode fazer lembrar, talvez, um descuido espanhol na operação da barragem de Alcântara no alto Tejo, soltando água tardiamente em 1979 sobre a gentil Lisboa, no evento acima comentado.
O verão que se aproxima do São Francisco, agora com a Pampulha enobrecida, parte dele reconhecida com o mesmo galardão do Danúbio, requer que Belo Horizonte tudo faça para garantir segurança e prosperidade a seu povo, mas também, no que estiver a seu alcance, a seus vizinhos longínquos da bacia.
  

Belo Horizonte, 25 de agosto de 2016.
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Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo


19 de janeiro de 2017

Estória minha com a água

ESTÓRIA MINHA COM A ÁGUA

GC 408 Estória com a água

Passei a infância em propriedade rural de meu pai à margem esquerda do Gualaxo do Sul, menor que o Zêzere, afluente do Tejo, mas tão bonito quanto. Fascinava-me o rio tanto espalhando fumaça invernal acima de sua superfície azul de doer a vista, quanto transportando verdadeiras toras nas cheias torrenciais, ou, ainda, baixo ele, espremendo-se desesperado sob o impacto do insignificante córrego do Moinho crescido até quase a vazão do rio. Pretensioso geólogo natural aos 8 anos, percebi empiricamente por que o córrego numa dessas deixava pedras de até meio metro de diâmetro formando um delta semilunar pedregulhoso, enquanto toda a gigantesca carga terrosa seguia rio abaixo (até o mar, pensava eu, porque salvo esse delta, e alguns outros, as margens, a meu ver, nunca acumulavam sedimentos). Fiz uma associação: Quando se plantava milho no Inocêncio, e principalmente no Buraco do Tanque, o córrego fazia essa manifestação de pujança, e quando a terra era posta a “descansar” o gado acompanhava esse descanso com cascos afiados escavando a terra. Tinha certeza absoluta, aos 8 anos, de que o descansar não gerava terra nova, e o esgotamento final se aproximava.
Geólogo formalizado, aprendi que o solo era uma categoria formada a partir das rochas, mas numa velocidade insuficiente para substituir a que era levada pelo córrego roncador e pelo caudaloso rio. Por essa época, aí pelos 10 anos, ouvi de Maria Gabriela que estava para chegar o dia em que o pai guardaria milho debulhado em garrafa fechada com breu para mostrar ao filho que estava para nascer. Cheguei a perguntar-lhe o que comeria ele nesse dia. Por essa época (anos 50 médios) outros adultos preocupavam-se com alternativas, e lembro-me de ver meu pai preocupado em preservar pequenos trechos de mata ciliar dos córregos e do próprio Gualaxo, neste com razoável êxito, que se nota hoje.
A humanidade não pensa hoje muito diferente. Pensa, por exemplo, que (só) a falta de mata ciliar resseca rios e córregos, (só) o eucalipto drena os pântanos, (só) a preservação da nascente preserva a água entre nós.
Antes de continuar, gostaria de lembrar que temos, 60 anos depois de minhas precoces confabulações com a água, um território completamente diferente daquele que assistiu a elas. Nem vou falar das alterações gerais da cobertura vegetal, da transformação do bioma cerrado, a mais drástica de todas, e da ocupação do Planalto Central e da Amazônia.  Temos hoje um território onde pontilham pequenos e grandes reservatórios, principalmente nas áreas urbanizadas, interrompendo o escoamento natural dos cursos d’água por represamentos sucessivos, desta forma, por exemplo, atraindo os mosquitos perseguidos no campo pelos mosquiteiros dos anos 50 para o ambiente urbano, onde o combate a eles parece ter priorizado os vasos de flores do décimo andar pelos brejos que a lei protege.
Há alguns anos eu achava que a valorização da mata ciliar estava sendo exagerada na proteção dos cursos d’água, pela simples razão de que a mata ciliar cobre muito pouco da bacia contribuinte; hoje alguns estudiosos, talvez mais atentos do que eu, começam a atribuir a elas efeito oposto ao de proteção, qual seja o de drenagem por evapotranspiração, aliás um processo participante da equação do regime hidrológico aplicada a uma dada área continental há muitos milênios conhecida (P = E + R + I, onde P é precipitação, E evapotranspiração, R escoamento ou run off, I infiltração, num dado intervalo de tempo).
Independentemente da presença do eucalipto, áreas conhecidas de mim naquela recuada época perderam vazão em seus cursos d’água, simplesmente secaram, ou deixaram de ter um caráter intermitente mais duradouro do que atualmente. Por que? Chove menos? Não pode ser incluído nessas possibilidades um escoamento precoce, para mim evidente? É esta, ainda que não exclusiva, a causa. Com efeito, a erosão laminar não terá perdido menos de 5 cm ou 0,05 m de solo superficial em encostas de grande inclinação. Na minha referência, em 200 ha, ou 2.000.000 m2, a perda de solo teria alcançado 2.000.000 X 0,05 m3 de solo, ou 100.000 m3 de solo. Esses 100.000 m3 de solo, com uma porosidade da ordem de 10 %, poderiam armazenar 10.000 m3 de água, que entrariam e vazariam várias vezes durante o ano.
Imagem do dia 2: aterro de resíduos contido por gabião antes de inaugurado, e depois de inaugurado na primeira chuva torrencial devolvendo em janeiro de 2010 a chuva do natal de 2009.

Pobre água, componente itinerante do sistema geológico que, diferentemente do jorro que se vê na imagem do dia, perdeu entrada e saída, e que não tendo entrada não precisa de saída, esse mesmo componente itinerante que nas terríveis nascentes das voçorocas, sempre abertas a mando da lei, bate asas precocemente em direção ao mar.
Já que toquei na lei, se tenho de ficar a 30 metros do córrego, onde plantarei inhame, ele que é doido por um lençol freático rasinho, levo-lhe a água em baldes, ou numa levada mais dispendiosa?
Recorro então ao mestre do Direito, pedindo humildemente ao parlamento que pare de bloquear a ciência sob  o peso insuportável de lei mal feita: “Não se pode impedir sob nenhum ângulo que a ciência avance ...” Juiz Carlos Alberto Menezes Direito,  Ministro do Supremo Tribunal Federal, como candidato indicado para o cargo, dando resposta ao Senador Antônio Carlos Valadares na sabatina de 29/08/07 na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal sobre regulamentação de pesquisas na área médica.

Recorro também a J. BARREIROS MARTINS Prof. catedrático emérito    jubilado da Uminho (Universidade do Minho) em seu artigo "Respigos da situação portuguesa e da situação europeia" ... “Porém, um governo, seja ele qual for, quando aplica uma pancada (decisão) a um “sistema humano” (o povo português ou outro), essa pancada não surte o efeito desejado pelos governantes, pela simples razão da costumada falta de senso e qualidade dessas acções, algumas delas “contra natura”. Muitas vezes essas acções até vão contra recomendações dos técnicos e cientistas nomeados pelo próprio governo, esquecendo-se os governantes que “a Ciência e a Técnica dizem o que é de prever”. E quando o governo executa o contrário, as leis da Ciência, como são as da Economia, esmagam todos os súbditos, só escapando os que trabalham na escuridão, e são muitos…” Diário do Minho em 09-07-2016.

Pois é, e agora digo eu: “Em tudo o que se ignora inexiste a criação”. Edézio Teixeira de Carvalho (Em iniciação de um geodependente – a hora de tomar os cordéis, 1999).


Belo Horizonte, 25 de agosto de 2016.
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Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo


Desequilíbrios geológicos

DESEQUILÍBRIOS GEOLÓGICOS

GC 407 Desequilíbrios geológicos

No último artigo, GC 406 Contradições inexplicáveis, apresentei declaração associada à comparação que fiz entre um tipo de desequilíbrio geológico, afinal um processo geológico, iniciado por evento singular, qual seja o surgimento de voçoroca no momento em que o enérgico escoamento torrencial rompe a película superficial mais resistente do solo (argiloso) e passa a escoar sobre o subleito siltoso, mais fraco que o superficial, como algo que pode ocorrer no corpo humano após uma fratura. A frase: “Uma voçoroca é exatamente como uma perna quebrada; a ela está associada uma forma telúrica de sangramento, uma nascente que chamo tecnogênica”. Um dos leitores disse ter ficado impactado com a expressão “uma forma telúrica de sangramento”. Fiquei exultante com a reação inteligente do leitor, que mostra ter compreendido a comparação que quis fazer entre a evolução da voçoroca nascente e a evolução do sangramento do acidentado em caso de fratura exposta, grave, sem assistência imediata: O acidentado morrerá de anemia aguda (espero estarem certos prognóstico e causa mortis), e a terra também, esta resistindo por tempo maior à litorragia, porque tem mais material a perder (água e solo, este não substituível na medida da perda anual por ser, em termos práticos, recurso natural não renovável). Quais serão os respectivos espólios? Um cadáver em minutos ou horas depois do acidente e a voçoroca algumas dezenas de anos depois de passar por fase de perda acelerada até que a forma convexa e verdejante passe a uma forma côncava, uma cavidade, com pouco revestimento de solo remanescente e sobre ele cobertura vegetal descontínua e pobre. A água, de tanto levar solo para fora, já vai praticamente sozinha para o mar tão logo chova, sem tempo de gerar solo novo no mais fecundo processo geológico, qual seja o do intemperismo químico, que transforma a estéril rocha no fecundo solo.
Imagem do dia: O vômito ferrífero em Bento Rodrigues.

Por que a insistência na analogia acima? Porque ela pode ser repetida às dezenas ou centenas de eventos ou processos geológicos que podem ser analogicamente comparados com eventos ou processos que se dão ao nível do corpo humano.
Da geodinâmica interna podem ser utilizados para analogias terremotos e vulcões; da externa escorregamentos, subsidências, elevação lenta do lençol freático enquanto a do corpo humano pode oferecer analogias a partir do AVC, crises agudas renais, do fígado e do coração; da dinâmica interna combinada com a externa podem sobrevir analogias como crises do fígado combinadas com manifestações externas como afecções cutâneas.
Vamos ao campo: Em 1985 o Nevado del Ruiz ronca, estrebucha, a terra treme a intervalos; fumaça espes-sa circunda o magnífico capuz de gelo no esplendor do inverno excepcional. Vulcanólogos comentam a situação com engenheiros geotécnicos e outros geólogos. Estes começam a esquadrinhar a terra à volta e fixam-se em Armero, a mais de 50 milhas da cratera encoberta do vulcão. Concluem que em passado recente da história geológica, embora remota para a humana, houve descidas de lama (lahars) gerada por fusão catastrófica do gelo e registros desse movimento estão nas imediações da cidade. Avisam Armero. Teriam sido chamados de catastrofistas e nenhuma providência teria sido tomada. Em questão de mês o vulcão explode e 25.000 dos 28.500 habitantes da cidade morrem soterrados na lama do lahar. Hoje se sabe que o previsível lahar, previsto a tempo, repetiu no ocaso do século 20 o que já tinha feito antes de colocar-se a cidade no lugar errado, um dos erros mais repetidos da humanidade ainda hoje.
Em 1896 um tsunami (consequente a um terremoto comum no Pacífico Norte) mata entre 26.000 e 31.000 habitantes do Japão, onde orla e tsunamis são velhos conhecidos. Em 1960 o terremoto mata 5.000 no Chile, de onde escapa um vagalhão que atravessa o Pacífico e 22 horas depois mata 220 japoneses em aldeia de pescadores, no Japão. No natal de 2004, já todos sabem, o terremoto na ilha de Java gera tsunami que se propaga como um grande leque em direção a Mianmar, Bangla Desh, Índia, Ceilão, Somália, Moçambique, Madagascar, quase todo o Índico ocidental, matando mais de 250.000 (segundo alguns, subcontados).
Em 1910 (o Japão de novo) 15.000 morrem em Sendai, em tsunami que também atingiu a usina nuclear de Fukushima (e talvez por esta razão o impacto imediato local maior do acidente tenha ficado praticamente no anonimato). Em entrevista uma brasileira, com parentes lá, diz que em penhasco na parte atingida pelo tsunami, inscrição do ano 1.000 recomenda não edificar além daquele ponto, o que faz não recomendáveis para residências as orlas do Pacífico e do Índico, fato já reconhecido no ano 1000 (naquele penhasco, colegas geólogos, terá ficado impresso o primeiro mapa de risco geológico da civilização atual!). Outros mares parecem inocentes; todavia o vagalhão que, subindo pelo Tejo, chegou ao Rossio em Lisboa em 1755, talvez com 10 metros de altura, começou no Atlântico. E agora, João Pessoa, Recife, Maceió, Natal, Fortaleza, Aracaju (minha cara Aracaju de meus tempos de Petrobrás em 1971/1973)? Questão de probabilidade, dir-se-á, que não será diferente para Nova Iorque, Salvador, Vitória, Rio, Santos. É verdade.
Em 1985 em Stada, Trento, a barragem de rejeito de uma mina rompe e mata cerca de 270 pessoas, evento em que a humanidade é, ao mesmo tempo, provocadora e atingida, como em Bento Rodrigues (que sugere ao Artista a imagem do dia). A história geral e a história geológica da terra oferecem leituras úteis e disponíveis.
A geografia física de eventos como os citados pode ser como nos Andes, no Índico, no Japão, e pode ser também como na serra fluminense, em que o evento, estritamente da geodinâmica externa, pode ocorrer debaixo dos nossos pés.  
  


Belo Horizonte, 14 de agosto de 2016.
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Edézio Teixeira de Carvalho

Engenheiro Geólogo

17 de janeiro de 2017

Contradições inexplicáveis

Contradições inexplicáveis
GC 406 Contradições inexplicáveis

Tento há anos desfazer uma das mais absurdas contradições lógicas que abalam minhas esperanças sobre o futuro do Brasil. Já comparei o comportamento do corpo humano ao do sistema geológico do nosso planeta, sempre com o reconhecimento de que o primeiro é mais complexo. Entretanto deixei de explicitar certas consequências. Por ser mais simples, parece-me a sociedade (des)organizada julgar-se conhecedora plena do segundo a ponto de legislar sobre ele com desenvoltura e insensatez infinitas. Passo então a expor o complemento da comparação iniciada. Uma voçoroca é exatamente como uma perna quebrada; a ela está associada uma forma telúrica de sangramento, uma nascente que chamo tecnogênica.
Embora eu considere a geologia a disciplina científica formalmente mais preparada para a compreensão fenomenológica da voçoroca, muitas áreas do conhecimento podem ter acesso a uma percepção próxima da geológica (física, geografia física, engenharia civil, agronomia, biologia). A perna quebrada é evidentemente tema do médico como a voçoroca o é da geologia, mas o farmacêutico, o enfermeiro, o engenheiro, o motorista, diante da necessidade inevitável, podem imitar o médico na emergência. Continuando com as similaridades lógicas, estando presente o geólogo, opera ele sobre a voçoroca e não o deputado através da lei. Às vezes tremo pensando em quando o Brasil determinará por lei que o médico peça autorização “ambiental” para operar a perna quebrada? Aí, por consequência, colhendo milhões de mortos ou amputados, não é verdade? Está acontecendo exatamente isto no Brasil com as voçorocas. Querem ver?

Figura: Voçorocas ativas e extintas em Cachoeira do Campo e voçorocas predominantemente extintas com reativações discretas em São Brás do Suaçuí, ambas em 2014.

Em São Brás do Suaçuí, onde estive em 1975 estudando o traçado das Variantes da Linha do Centro no trecho entre Jeceaba e Barra do Piraí percebi como elas, impondo o traçado da via urbana principal da cidade, afinal uma rodovia que liga a região dos Campos das Vertentes à BR-040, determinava um urbanismo fortemente condicionado. Estão, de minha memória, acentuadamente renaturalizadas em termos de cobertura vegetal, o que parece a alguns uma maravilha. Entretanto o território vai de sul a norte e de leste a oeste. Na parte contida na bacia do Paraopeba, onde está o solo que se encontrava naqueles imensos anfiteatros abertos pelas “inocentes” nascentes? Assoreia os cursos d’água a jusante, no mínimo comprometendo a reprodução da ictiofauna; assoreia reservatórios pequenos como o de rio de Pedras, comprometendo a geração de energia e reduzindo a segurança contra inundações a jusante, e grandes como o de Três Marias; assoreia o leito do São Francisco, que vimos exposto, todo vermelho-amarelo de terras que já estiveram nas grandes bacias tributárias, até como naquela voçoroquinha que vi em matéria do Globo Rural logo abaixo da cachoeira Casca Danta no curso principal do São Francisco.   Então aquele conjunto de São Brás é uma das milhares de pernas quebradas, que não foram cuidadas a tempo, do São Francisco, assim como há os conjuntos do Paraibuna, do Grande, do Doce (amargo doce), do Jequitinhonha, do Contas, todos eles emissários dos sangrentos rasgos feitos pelas nascentes das voçorocas.
E o conjunto de Cachoeira do Campo? Não é diferente essencialmente do de São Brás e do de Lafaiete, aliás pertencentes a conjuntos geológicos que os geólogos do mapeamento designam por siglas às vezes inspiradas numa localidade tipo, como por exemplo o de Cachoeira do Campo, A3b, em que o b é de Bação. Ele encontra-se numa fase morfogenética que pode comportar um estágio juvenil (voçorocas ativas descarregando imensas quantidades de solo anualmente) e um estágio senil, em que a descarga teve sua intensidade muito atenuada. As voçorocas de Cachoeira do Campo são mais didáticas porque aí convivem as jovens e as velhas, onde é possível ver e comparar as quantidades de água e solo que descem: Nas jovens mais água (suja e barro nas precipitações pesadas) e nas senis quantidades menores de águas que praticamente somem na estação seca e quase nenhum solo mais. Por que, afinal, tais distinções? É hora de mostrar que uma voçoroca por processo natural nunca ultrapassa o topo da encosta, a crista do espigão, às vezes com duas voçorocas opostas, porque a dinâmica do processo esgotou-se por falta de reservatório de solo poroso, levado por “quem”? Levado pela nascente que chamo suicida; afinal é ela a suicida, a agente principal dos processos geológicos exógenos, que, implantada por mau uso do solo numa encosta de volume limitado de solo original, acaba com ele em décadas ou até milênios, vá lá. E ele acaba porque (é necessário dizer) é, para todos os efeitos práticos, considerando a morosidade do processo geológico de geração de solo novo, que chamamos intemperismo químico, um recurso natural não renovável.
O sistema geológico do São Francisco funciona desde antes de Casca Danta até o mar, em cada compartimento da bacia com uma dinâmica própria de cada contexto geológico.
Em boa hora o país achou que deveria concentrar em cursos de Geologia conteúdos até então dispersos para tratar especificamente das competências de uma carreira que atendesse o campo mineral e as questões ligadas ao campo geoambiental e do planejamento do uso e ocupação do solo.  Por outro lado, é necessário dizer que o que lei maior concede, lei menor não tira. Evidentemente não conheço com pormenor os mecanismos pelos quais se estabelecem os campos cobertos por legislação, mas a Lei 4076 promulgada em 23 de junho de 1962 pelo então Presidente João Goulart, não terá sido revogada para ceder tratamento superior ao conceito de nascente constante do Código Florestal. O lamentável conceito, mesmo com os remendos de 2012, manda que a água de não-nascentes torne precocemente ao mar, levando com ela o solo, não renovável como sabemos, promovendo desequilíbrios geológicos que podem ocorrer a milhares de quilômetros de onde ela sai. Enquanto isso os geólogos, formados sob a égide daquela decisão nacional de 1962, assistem inermes à destruição legalmente comandada do território pátrio.
Esses territórios, que perderam milhões de metros cúbicos de solo, e de reservatórios hidrogeológicos, e que ostentam milhões de hectares de parcelas inúteis, são recuperáveis: São parcialmente recuperáveis por meio de intervenções de reabilitação que permitirão a disposição de resíduos inertes (inertes, não perigosos) que a humanidade ainda não aprendeu a aproveitar, assim como Minas Gerais, que, com tantas cavidades de mineração desativadas, tão fáceis de cuidar quanto as voçorocas, por métodos diferentes, e que não aprendeu com o extraordinário caso de Las Medulas dos espanhóis.
Não pretendo estender mais este texto, mas acho oportuno adiantar que, independentemente do uso do solo no meio rural, há uma infinidade de questões relacionadas à água que devem ser revisadas no Brasil, e que só o serão quando houver o desbloqueio das leis científicas. E isto se torna ainda muito mais importante nos meios urbanos, já implantados ou a implantar, e ocorre citar possibilidades que se abrem, por exemplo, em relação a Cachoeira do Campo, que me parece predestinada a participar do descongestionamento de Ouro Preto pela transformação das voçorocas em áreas perfeitamente urbanizáveis e muito mais seguras que as ladeiras da velha capital. Com efeito, as cidades são segundas naturezas, podendo partir de situações difíceis de recuperar para a atividade rural, que paga pouco por unidade de área, em comparação com o meio urbano bem planejado, que paga muito mais. As cidades devem ser tema de um próximo artigo. 

Belo Horizonte, 20 de junho de 2016.
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Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo


Árvores Urbanas: Problema Definido?

Árvores Urbanas: Problema Definido?

GC 405 Árvores Urbanas: Problema Definido?

        Tenho clara consciência de que problema não definido é insolúvel. (Já falei antes que problema inventado também é insolúvel). Vamos ao da árvore urbana. A árvore é componente transitório do sistema geológico, querendo isto dizer que sua passagem por ele é necessariamente limitada. Por outro lado, o sistema geológico é parte integrante da Cidade, visto ser esta a reunião interativa e indissociável do Edificado com sua Plataforma Geológica.                      
         Igualmente ao que acontece na sua relação com o sistema geológico, a passagem da Árvore pela Cidade é limitada no tempo, porque a Cidade veio para ficar; exceto algumas da aventura mineral; quer ela a Eternidade enquanto a Árvore contenta-se com algumas dezenas ou centenas de anos.
       A árvore pode morrer e permanecer de pé. Nas cidades mesmo viva resolve cair na ventania com ou sem água ou granizo. Onde está o problema? Na relação que tem sido proposta entre a  Árvore  e a Cidade. Como componente da Cidade, que contém outras inúmeras categorias de componentes, a lógica essencial do planejamento urbano é que a Árvore deve à Cidade a disciplina comportamental, por conviver com casas, postes, fiação, veículos ... e pessoas. Onde se esconde o problema essencial? Na seguinte inversão de valores pois não é que a sociedade resolveu, sem qualquer reflexão, considerar que a Cidade deve viver para a Árvore e não exatamente o oposto?
        Eis o problema. Definido o problema, a solução a ser aplicada indiscutivelmente pela gestão é escolher a espécie certa e definir a hora certa de removê-la. Feito isto, a Árvore só poderá envolver-se em problemas quando atingida acidentalmente.
       Espero que a chamada megalópole aprenda a lição recentíssima (noite de 16 de maio de 2016) para arrastar suas irmãs mais modestas à generalização de uma prática minimamente civilizada como acontece com todas as cidades dos países desenvolvidos. Não foi por outra razão que eu e parceiros de um livro a sair  identificamos o problema da Árvore na forma exposta.


Belo Horizonte, 17 de Maio de 2016.
Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo

Leitura geológica de Chicago

Leitura geológica de Chicago

GC 404 Leitura geológica de Chicago

Não se trata de uma leitura geológica de Chicago-objeto, que incluiria a ocorrência geológica e o uso do substrato e do material geológico na função essencial, nem de uma leitura geológica de Chicago-sujeito, como se organizou para explorar as possibilidades que a geologia lhe oferecia, mas é mais esta, porque da outra nem tempo tive em cinco dias para fazer algo minimamente estruturado. Ora, a leitura geológica da Chicago-sujeito é a da Chicago que usou materiais geológicos que se apresentam ostensivamente como partes dos materiais de construção, indo além de simples calçadas, de muros ou de placas de revestimento de fachadas, portanto em muitos casos implicando por parte do arquiteto/engenheiro um juízo voltado para a função integrada do essencial, estrutural, com o complementar, perene, resistente ao fogo, e de finalidades ornamental e educativa, como se vê no templo abaixo retratado, construído todo em rocha, em que, mesmo não sendo católico fervoroso, imagino que o arquiteto/engenheiro tenha pensado numa mensagem divina aos homens e mulheres piedosos que a cidade completamente destruída pelo incêndio renasceria pelas mãos sucessivas de Deus, capaz de reconstruí-la com os materiais esmagados, reposicionados e reunidos por Sua força e pelo gênio de Sua criatura, capaz do primor de cantaria que a coluna representa. Alguns prédios são feitos inteiramente de blocos rochosos, não apenas revestidos, e podem ser de superfícies irregulares, serrados ou polidos.


Não sei se devemos imaginar que o incêndio de Chicago, iniciado pelo coice de uma vaca no lampião que espancava as trevas da madrugada, terá impulsionado uma reconstrução organizada e não o oposto, como seria até admissível, improvisada por uma possível penúria consequente ao acidente. Fato é que a maioria dos prédios públicos antigos usa abundantemente rochas, ou homogêneas, ou distintas, combinadas conforme as funções, havendo as sedimentares, as ígneas, as metamórficas, e dentre estas magníficos espécimes de migmatitos com componentes vermelhos vivos e negros.
O uso não se limita a peças trabalhadas fixas, incorporadas a funções permanentes, mas inclui materiais granulares como camadas de seixos rolados soltos, usadas para inibir o crescimento de vegetação, e, curiosamente, a peças isoladas como blocos irregulares deixados sozinhos como esquecidos nos gramados do parque Milênio.

Muro ou piso decorado por dendrites de óxido metálico em quartzito (pedra São Tomé).

Não obstante esse notável critério especial de uso e ordenação dos componentes geológicos, que pode perfeitamente ter levado estudantes a optarem pelo estudo da geologia a partir da curiosidade despertada, não segue esse uso tão sistemático outra característica da cidade de incluir mensagens mais ou menos longas dando notícias de eventos associados, como doações e seus responsáveis, partes sobreviventes do incêndio como a caixa d’água de pedra que a ele sobreviveu, e perto desta, nas proximidades do prédio do jornal Tribuna de Chicago uma fachada de prédio com numerosas placas trazidas de diversas partes do mundo, uma delas com uma figura chinesa em alto relevo tendo ao lado a seguinte inscrição: “Ancient temple Honan Province China” e outras do mundo greco-romano, egípcio, assírio, persa.
As referências geológicas silenciosas, mesmo as de magníficas rochas ornamentais de fachadas de Belo Horizonte, das mais suntuosas do Brasil, capazes de sustentar cursos práticos de petrografia macroscópica, podem não chamar tanto a atenção dos leigos dadas as inúmeras outras referências visuais atraentes à disposição dos visitantes, na cidade que sedia uma verdadeira escola arquitetônica, a de Chicago. Então sugiro-lhes, se um dia subirem a rua Grão Mogol em Belo Horizonte, no segundo quarteirão à esquerda, à frente de um restaurante que foi recentemente Casa Cor dos arquitetos de Minas Gerais, procurem na calçada de quartzito, e verão algumas placas com formações superficiais salientes, arborescentes, formadas por óxido metálico introduzido nos planos de acamamento, que os geólogos, justificadamente, chamamos dendrites: Essas dendrites, semelhantes a desenhos chineses de vegetação herbáceo-arbustiva, ocorrem dispersas entre as placas das famosas pedras chamadas pedras São Tomé, do Sul de Minas. Se tivessem sido assentadas agrupadas, como na imagem agrupada acima, e não dispersas na calçada, chamariam a atenção das pessoas e neste caso estariam cumprindo um papel educativo e ornamental divulgando um aspecto interessante da geologia de Minas Gerais.
Muito obrigado, Chicago! 
Belo Horizonte, 30 de abril de 2016


Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo

13 de janeiro de 2017

Nascentes suicidas II

Nascentes suicidas II

Geocentelha 403 Nascentes suicidas

   Os cursos d’água a que dão origem as nascentes são os principais emissários da água que retorna ao mar levando solo erodido. Há outros emissários como os ventos dos desertos e águas das geleiras. Falamos aqui dos territórios desequilibrados pelos elementos climáticos. A escultura do Grand Canyon provocada por ascensão epirogênica não está incluída. Dentre os primeiros destacam-se nascentes surgidas das voçorocas, erosões ravinosas profundas que, em períodos de atividade  intensa, arrastam caminhões de terra (para dizer muita terra).

Figura 1: Voçorocas da região de Cachoeira do Campo (2006 e 2015) em fase avançada de evolução, quase esgotando-se por falta do material que elas mesmas removeram.

   Acima voçorocas de 2006 (esquerda) e de 2015. Estão agrupadas em posição de estereoscopia à vista desarmada. É possível notar que estão próximas da estabilidade, as mais antigas (da direita), quase já na senilidade. Observando qualquer dos quadros, pode-se imaginar ciclo anual de variações sazonais, e nele ver-se-á que no tempo chuvoso água chega suja ao talvegue, assim às vezes permanecendo por longos dias de passadas as chuvas, por isso mesmo havendo córregos sujos e ribeirões vermelhos. Terminado o primeiro ciclo, o segundo retoma os valores do primeiro (dois anos por hipótese idênticos em pluviosidade), de vazões, carga sólida, etc. Estaremos certos, admitindo que a propriedade sustentabilidade, inerente ao sistema geológico quanto a recursos hídricos não varia com oscilações sazonais? Não estamos, porque, no segundo ano, observando a vazão descarregada no mesmo dia do ano anterior, medida com suficiente precisão, não teremos vazão igual, mas maior que no ano anterior porque no ano anterior tínhamos mais solo com a mesma porosidade e portanto com mais espaço poroso para reter água. Então, por menor que seja a diferença de ano para ano, no seguinte temos menos água retida.

Figura 2: helicoidal ascendente em que z representa a vazão precocemente perdida ano após ano.

Mais uma vez, por que? Porque a água voltou direitinho, por ser recurso natural renovável, mas o solo que foi, foi de vez, e porque no curto espaço de um ano, ele não é reposto pelo processo geológico de formação de solo novo, recurso não renovável que é. O modelo geométrico da sustentabilidade para o ciclo acima não é um círculo (horizontal, e portanto de cota constante ao longo dos ciclos anuais, que caracterizasse a sustentabilidade hídrica como invariante no tempo), mas arco anual de uma helicoidal, portanto como a rosca de um parafuso cilíndrico, exatamente como o desenho acima.
Visto o desenho, não há pensar de forma diferente: O modelo helicoidal mostra que, chova mais ou menos ano a ano, não deixará ano a ano o solo de escapar da cavidade que se vai formando, movido pelos torneirões abertos da torrente descontrolada, descer pelo córrego Sujo e pelo ribeirão Vermelho. Junto com a água que se despede precocemente de nós, ainda que prometendo retornar, mas levando em definitivo o solo, vê-se este a entupir as veias da bacia de um pobre São Francisco. Urge, pois, agir também precocemente promovendo a retenção do solo das voçorocas novíssimas, antes mesmo que nelas surja inocente e sagrada nascente. Urge também a reposição do solo perdido definitivamente, em termos naturais, para recuperar a capacidade de armazenamento e portanto a sustentabilidade hídrica naquelas conchas que não guardam água, esvaziadas e secadas pela nascente que se suicidou.
Sei fazê-lo na retenção e na reposição, e não precisarei ensinar ao povo brasileiro intervenção tão evidentemente necessária e tão singela como se pode ver no método geológico! Por outro lado não se admita também, e isto vale para meus netos, a professorinha, e o senador, não desenvolverem no tempo certo, ou ainda que tardio, a percepção da evidência de que, sendo o solo, em termos práticos, recurso fundamental da sustentabilidade, não renovável, dessa sustentabilidade tão decantada, não há como mantê-la invariante no tempo, e crescente no tempo, sem as providências acima recomendadas, para que seja evitado o suicídio certo das nascentes novas, e para que façamos ressuscitarem as perdidas.
Afinal, país inteiro que não percebe o surgimento de desequilíbrio geológico aparentemente pequeno em cada exemplar, mas que se repete aos milhares, nem sua consequência jogando fora o solo e entupindo os rios, recebe essa consequência por insistir em “preservar” em sua lei ambiental maior as nascentes suicidas ou os buracos que já tenham feito.
Seria a conclusão acima como o final de um soneto, como já foi dito igual ao ferrão do escorpião, não existisse razão para poucas linhas a mais. Falei acima da dinâmica interna, um desequilíbrio geológico que a civilização talvez nunca venha a saber controlar ou modificar, como também não controla eventos endógenos como vulcões, terremotos, nem mesmo os pontuais geysers. Entretanto nascente de voçoroca responde a desequilíbrio geológico provocado direta ou indiretamente pela ação humana. Se nada se fizer para contê-lo, a natureza nos substituirá, e ele será controlado assim: O ponto de descarga ou nascente recuará encosta acima; a cavidade formada alargar-se-á com a perda anual de solo; com o tempo as quantidades de solo anualmente removidas vão-se reduzindo, até que a borda superior dessa cavidade se aproximará muito do topo da encosta, deixando ali, no máximo a trilha de um cavalo; a nascente morrerá, a menos que queiramos chamar nascente a enxurrada comportada das precipitações sazonais, simultânea com a precipitação.
Como parar o desequilíbrio inicial, e como reparar o avançado? Este, o da reabilitação da sustentabilidade perdida, pode ser feito como no Método Geológico, que acompanha este artigo. Quem o fizer uma vez saberá muito bem conter o desequilíbrio inicial provocado pelas nascentes novas.



Belo Horizonte, 28/03/2016

Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo

Nascentes Suicidas I


Nascentes suicidas I

Geocentelha 402 Nascentes suicidas

Temos pelas nascentes reverência, a ponto de acharmos todas sagradas. De fato as verdadeiras contam com reservatório geológico próprio, de porosidade capaz de conter água suficiente para atravessar estação seca normal e permeabilidade variável, com oscilações de vazão, influenciando os tempos de esgotamento. Enquanto não esgotadas, dessedentam pessoas e animais; às vezes os cursos d’água a que dão início contribuem para a formação de paisagens excepcionais, como uma Casca Danta. Por outro lado têm “defeito” natural: cursos d’água a que se diz darem nascimento buscam o mar independentemente de, no caminho, estarem demandas a atender.
Tão acostumados ficamos em associar às nascentes e seus cursos a realização de necessidades, que  nem pensamos na hipótese de termos água próxima no subsolo (li certa vez que em país da Ásia pessoas morriam de sede com água potável a escasso meio metro de profundidade). Essa água, quase superficial, em cisternas ou poços escavados, tem, para quem a usa, vantagem sobre a água corrente porque deles só se consome a necessária.
É justo que o Estado tenha pensado em emitir leis disciplinando o uso da água, mas precisava exagerar em platitudes inesgotáveis, metendo-se em áreas da alçada do conhecimento específico, comprometendo a sobrevivência do decantado recurso hídrico?
Vamos a caso lembrado para exemplo. Em encosta íngreme, aos quase 70 anos, não encontrei dificuldade em galgar 200 m, desnível de 60 m até a cabeceira da ravina,  esplêndido exemplar, maravilha geológica esculpida no solo residual do ortognaisse, com pelo menos 15 metros de profundidade na cabeceira subvertical, com paredes de castanho escuro revestidas de microflora a indicar imobilidade de processo finalizado há dezenas de anos, e a surpresa: Nenhum filete de água ao fundo, depois de uma semana de chuvas copiosas, onde voçorocas clássicas, ativas, têm águas barrentas escoando, emissárias que são do solo, principal fator geológico da sustentabilidade, em direção ao rio, e deste ao mar. São, portanto, mais de 15 metros de espessura sem água móvel porque toda ela escorreu na descarga laminar ajudada pelo pisoteio bovino implacável. Um metro abaixo desses o substrato impermeável.
Que representa essa voçoroca? A senilidade, que chegará para todas as demais, porque no território geologicamente instabilizado há 300 anos em Minas, todas as nascentes associadas ao processo erosivo esgotar-se-ão, porque toda água perder-se-á a escoar da nascente suicida que insiste em permanecer no Código Florestal. O componente itinerante do sistema geológico já passou dos dedos do Batista para a cabeça do Cristo e já ouviu Buda em Benares a dizer que “O mar, evaporando-se ao Sol, restitui ao rio suas pequenas ondas perdidas, sob a forma de ligeiras nuvens que gotejarão do alto das montanhas e correrão de novo sem trégua nem repouso”.
No Nascentes suicidas II a solução geológica.

   

Belo Horizonte, 23/02/2016

Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo