30 de março de 2011

Atraso na preservação de nossa cultura e a situação crítica dos tombamentos

Colaborador da FIABCI/BRASIL (Federação Internacional das Profissões Imobiliárias) comenta a situação crítica dos tombamentos no Brasil em documento hoje publicado no jornal Estado de São Paulo e cita argumentos de geologia urbana de Edézio Teixeira de Carvalho. Veja abaixo.

Sérgio Mauad (*)

Raízes, base do sólido e saudável desenvolvimento de qualquer país, devem ser preservadas. Na sociedade, a memória histórica deve sempre se somar ao nosso instinto desenvolvimentista, balizando regras básicas do bom convívio social, em clima de harmonia entre hábitos e cultura regional, para um avanço saudável. A sabedoria de cada povo está em discernir o que deve ser tombado e preservado, e a que custo, sem impedir a evolução da natureza, que busca seu próprio equilíbrio, e também o progresso de uma nação. Não é exatamente o que vemos no Brasil.
Anos atrás, num congresso da Fiabci Mundial na Áustria, um painel de debates sobre tombamentos, para preservação do patrimônio cultural, mostrou-se especialmente rico em argumentos. Foram levantados prós e contras, ao se avaliar um efetivo tombamento. Ouvimos opiniões bem embasadas, de autoridades no assunto, mostrando como viabilizar tombamentos, o porquê de fazê-los ou então o porquê de não fazê-los em determinadas circunstâncias. Exemplo de apresentação.
Prevaleceram as opiniões que defendiam a preservação da história, desde que não se desequilibrasse financeira e economicamente o poder público nem os indivíduos ou empresas proprietárias dos imóveis a serem tombados.  
Chamou atenção debate fecundo entre representantes de dois países de culturas e idades diferentes, Japão e Canadá. O representante japonês defendeu a idéia de que o espaço urbano deve ser maximizado. Exibiu foto de um casarão histórico no centro da cidade e pediu atenção para a arquitetura da sua fachada. Apenas ela fora preservada, incrustada na fachada do novo edifício, moderno, em um painel rente à calçada. Dizia ele: “Não podemos sacrificar a transformação natural da cidade, que precisa atender seu crescimento orgânico, daí ter sido mantida apenas a fachada histórica, preservada com uma placa identificando e registrando sua memória.”
O representante do Canadá interveio mostrando que, para tombar um edifício, particular ou público, a primeira premissa a ser respeitada é que o país seja rico o suficiente para garantir sua conservação, manutenção e uso adequado daquele bem.
No Brasil, temos assistido a discussões sobre tombamentos carentes de visão assim mais abrangente. Refiro-me ao enfoque que leve em conta, sim, a sustentabilidade e a preservação ambiental, mas que não despreze esse dado concreto de suma importância: nossas cidades ocupam menos de 1% do território nacional.
Recentemente, o geólogo Edézio Teixeira de Carvalho expôs seu pensamento pela Internet sobre o tema, que reproduzo em parte aqui: “...não podemos criar uma cidade aleijada só porque um pequizeiro está no caminho. Daqui a 50 anos, o pequizeiro morre e a cidade leva seu aleijão até o final dos tempos, porque ela é a única obra humana que foi concebida por um lado para a eternidade e, por outro, exatamente para substituir a primeira natureza por uma segunda, em que componentes da primeira podem ter lugar desde que necessários, convenientes e conviventes.” E perguntava ele: “O que havia antes no local onde foi construído o Louvre de Paris?”.
Quem olha uma planta de São Paulo com imóveis tombados ou em fase de tombamento e fixa sua atenção nos trezentos metros em volta, fica surpreso. Sua ocupação e o uso do solo são restritos, impondo-se como verdadeiros quistos urbanos desafiando qualquer plano racional de diretrizes para o desenvolvimento da área.
A condição deplorável em que se encontram vários imóveis tombados como Patrimônio Histórico, alguns deles, inclusive, invadidos, evidencia a ausência de políticas públicas consistentes para garantir a preservação da memória. Afinal, vale para o urbanismo o mesmo que se aplica à cabeça das pessoas: mente vazia é oficina do diabo. Melhor dizendo: lugares que não têm uso produtivo acabam sendo ocupados por quem não tem nada a oferecer para a cidade; é o risco latente de novas Cracolândias. Na questão dos tombamentos, abraçamos o atraso.



São Paulo, 30 de março de 2011.

(*) Sérgio Mauad é colaborador da Fiabci/Brasil, ex-presidente do Secovi-SP e presidente da SMDI-Desenvolvimento Imobiliário. 
Enviar comentários para sm@sergiomauad.com.br  



Fontes:
Jornal Estado de São Paulo [consultado em 30 de março de 2011]
http://sergiomauad.com.br/post.php?ID=19 [consultado em 03 de dezembro de 2014]

16 de março de 2011

Lições do Japão

Lições do Japão
Geocentelha 326

São admiráveis as lições do Japão, mas nem todas estão à vista. A mídia, que consultou especialistas, não expôs todas elas. A intensidade do terremoto, não a magnitude, usada para comparação, que atinge um dado local, é inversamente proporcional ao quadrado da distância do local considerado ao foco (hipocentro). Certo ou com ajustes a fazer, não faz sentido estarmos agora preocupados com a profundidade de 24 km do foco, que só teria sentido para dizermos da intensidade com que chega a onda de choque ao epicentro. No caso de Sendai, cidade mais atingida, a 130 km do epicentro, e este a 24 km do hipocentro (profundidade) a intensidade (ordem de grandeza) deve ter sido da ordem de 3,35% da intensidade no epicentro. Considerando a distância para Tóquio, de 370 km, a intensidade aí teria sido de 0,4% da intensidade no epicentro! Portanto, o terremoto, mesmo tendo sido muito grande, não pôs à prova, de fato, as estruturas em Sendai e muito menos em Tóquio.

Daí resulta a consequência mais global da localização do terremoto: Ela fez que os principais danos diretos  tenham ficado por conta do tsunami, o que afinal foi visto nas imagens.

O que vi de mais positivo das lições que nos passaram os japoneses: As autoridades deixaram evidente que valorizam mais a Vida que a Propriedade, sendo o indicador mais forte a quantidade enorme de veículos arrastados, portanto guardados em lugares mais expostos ao tsunami que as residências, mas a posição destas não me convenceu inteiramente pelo que direi mais à frente. Os barcos das marinas, confesso não saber bem como proteger mais eficazmente. Neste aspecto, fica muito claro que a baixa orla japonesa presta-se muito bem ao plantio de arroz e hortaliças, cujo risco fica limitado à perda de safra ou à ocorrência fortuita. A disciplina geral com que se comportou o povo nas primeiras horas pareceu-me um comportamento de quem está convencido (valor cultural) das orientações muitas vezes treinadas que de uma obediência cega.

A outra lição importante é a forma logicamente bem estabelecida de fixar prioridades: Na prevenção reduzir ao mínimo a exposição ao risco previsível em relação ao fortuito. Em orla sujeita a tsunamis é claro que a habitação à beira-mar em cota baixa será certamente atingida, podendo isto ocorrer com pessoas dormindo; banhistas na praia ou lavradores no arrozal podem correr para plataformas resistentes ou lugares mais altos em resposta aos avisos (risco fortuito e sobre pessoas em vigília).

A construção sismorresistente, não testada, não faz menos temerário o gigantismo de Tóquio e não percebi uma cota mínima realmente segura na urbanização da orla, que poderia ter salvo metade ou mais dos que morreram no tsunami de 2004.

Finalmente, diante do sismo do Haiti e do maremoto que atingiu Lisboa em 1755, originado no contato das placas africana e européia, acho imprudente considerar o nosso Atlântico tão isento.  

  
      
Belo Horizonte, 13 de março de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo.



Comentários do autor

Amigos: Os editores e jornalistas em geral conhecem uma lei muito parecida com as leis físicas. É mais ou menos isto: O volume de matéria jornalística publicada sobre um fato notável é inversamente proporcional ao tempo passado do fato. Por esta razão apressei-me  em enviar ao Editor de Opinião de O Tempo reflexões preliminares sobre o ocorrido no Japão, mesmo correndo o risco de ser em parte desmentido. Procurei fazê-lo tentando cobrir um campo, que considero importantíssimo, das medidas de prevenção do risco, que, a meu juízo, tinham sido pouco exploradas pela própria imprensa e pelos analistas especializados (vi as opiniões e declarações de uns 15). Atualizando minhas avaliações para o que vi até a manhã de hoje (16/03/2011), tenho tristemente confirmado o que tinha apontado como uma dúvida, que parte significativa da orla certamente foi temerariamente ocupada por residências; vi muralhas construídas na praia num dado local; mais do que prevenção no caso, parece-me imprudência dos japoneses e erro de filosofia de urbanização; eu, em hipótese nenhuma, colocaria minha residência a uma altitude menor que pelo menos 20 metros no Pacífico e no Índico, assim evitando, com minha família, o risco estatisticamente significativo; poderia eu então ser atingido na praia, como banhista, ou plantador de arroz ou hortaliças, mas aí seria atingido em estado de vigília, em ocorrência fortuita (a circunstância probabilisticamente excepcional de eu estar na praia na hora do ocorrido). Não falei da questão nuclear porque não sou conhecedor da parte nuclear dela, mas o planejamento da prevenção, definitivamente, agora já não me convence, estando os japoneses trabalhando com dois recursos improvisados, além dos três que falharam surpreendentemente, sem terem no caso enfrentado intensidade alta no local, quais sejam o bombeamento direto de água do mar e agora esta de derramar água sobre os reatores a partir de helicópteros, lembrando-me muito bem, contado a mim por um geólogo russo, a forma inicial de sepultar o reator de Chernobil ----- por meio de massa de concreto lançada de hilicópteros. Tanto quanto torço para que as fatalidades não cresçam muito, torço para que a humanidade passe a considerar que, a rigor, não há diferença entre perder vidas pelo hálito pestilento da morte nuclear, pela dengue, ou pelo acidente geológico para o qual se tenha deixado de tomar medidas preventivas cientificamente embasadas e lógicas.

A diferença entre elas é que, por desconhecimento de outros fatores, possam levar a decisões de governo equivocadas.

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo

15 de março de 2011

Seminário sobre APPs em áreas urbanas.

Caros colegas, coloco a disposição de vocês palestras que discutem APPs em áreas urbanas. Realizada em Belo Horizonte no Centro de Educação Ambiental - CEDAM/SMMA, em dezembro de 2010.

Os links para download são:
(Apresentação Joaquim Martins)

(Apresentação Edézio Teixeira)

(Apresentação Francisco Freitas)

(Apresentação Antônio Pádua)

4 de março de 2011

O Método Geológico

Caros colegas, coloco a disposição o texto "O Método Geológico Aplicado à
Implantação de Aterros de Resíduos", que trata da recuperação de áreas degradadas pela disposição controlada de resíduos de construção e demolição.


26 de fevereiro de 2011

O Paradoxo paulistano

O Paradoxo paulistano
Geocentelha 325

Alguém duvida de que São Paulo é a maior concentração de conhecimento e inteligência no Brasil? Maior concentração de poder econômico? Maior aparato institucional de universidades e centros de pesquisas? De que São Paulo tem a maior experiência de construção viária na serra do Mar? Eu não! É claro que, com exceção do último qualificativo, não desprezando outras experiências viárias na serra, São Paulo tem tudo isto a mais por questão de proporcionalidade populacional, turbinada por desenvolvimento mais consolidado. E agora? São Paulo pode resolver ou liderar a solução dos problemas urbanos da serra do Mar? São Paulo tem experiências comprovadas em Santos, Ubatuba, Caraguatatuba, Cubatão. A resposta então seria afirmativa. Pode, mas poder não garante que o consiga. E a dúvida não surge por questão puramente técnica ou de arranjo institucional (política), mas enraizada profunda e sutilmente no âmago da mais delicada das ciências aplicadas, a da gestão.

Corto agora para a primeira entrevista do saudoso Mário Covas, governador, a que assisti pela televisão ao assumir seu primeiro mandato. Respondeu a uma pergunta assim: “A solução do problema do Tietê é conceitualmente simples, concentrando-se essencialmente em alargar e aprofundar a calha”. Não obstante os esforços aplicados, a solução prometida parece um poente, que se aproxima de nós à medida que tentamos afastar-nos dele antes que as trevas nos cubram. Em janeiro vejo, na televisão, o governador paulista atual declarar: “Vamos dar continuidade à construção dos piscinões. O piscinão é a várzea moderna”. Talvez esteja aí uma ponta da explicação do paradoxo paulistano, pois quem faz a nova Imigrantes, plena de exemplos de boa técnica, e muito mais do que isto, da melhor filosofia concepcional e construtiva, tem capacidade de sobra para ter resolvido o problema das inundações de São Paulo, que ameaça sobreviver ao século 21! Não o fez porque não tomou conhecimento de descrição geológica do problema e muito menos nela inspirou a solução. O problema não é simples como disse o primeiro, e não se compadecerá nem com a sua solução e muito menos com a várzea moderna do segundo.

Na rodovia a liberdade de pensar na aplicação do conhecimento e da inteligência em busca da melhor solução é ampla e notória. Cidade é diferente, é construída dia a dia por muitos agentes mal coordenados. Precisa certamente de regulamentos especiais, que, contrariamente ao que fazem os atuais, estimulem o uso do conhecimento e da inteligência, na busca dos terrenos mais seguros para a habitação, dos meios mais eficazes de dispor e imobilizar as massas geológicas e de dar à água lugar e condições de entrada e de saída no sistema geológico conforme a sua feição. Sem o uso do patrimônio intelectual, formado a duras penas, agora não só o dos paulistas, o dinheiro do pré-sal e supercomputadores rolarão na lama como os matacões da serra.   


       
Belo Horizonte, 04 de fevereiro de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho

Eng. Geólogo.

Manifesto de geólogos de Minas Gerais sobre a gestão do risco geológico

Este documento foi escrito por Cláudia de Sanctis Viana, Edézio Teixeira de Carvalho, Luís Bacellar e Maria Giovana Parizzi, geólogos, presentes na sede da empresa GEOLURB Geologia Urbana e de Reabilitação Ltda, à avenida Getúlio Vargas, 668 Sala 1201, em Belo Horizonte, todos geólogos, em reunião secretariada por Fábio Henrique Dias Leite, também geólogo. Participaram da elaboração do documento os também geólogos Eduardo Antonio Gomes Marques, Frederico Garcia Sobreira e Leonardo Andrade de Souza, mediante o envio de contribuições prévias, todos sócios da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental ABGE. Todos estiveram por diversas ocasiões e canais em conexão com a comunidade geológica dos vizinhos estados de São Paulo e Rio de Janeiro acompanhando e participando das confabulações em torno dos catastróficos episódios de deslizamentos de terras, corridas de lama e inundações ocorridos na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, em especial nas cidades de Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis; de inundações que mais uma vez atingiram duramente a capital e outras cidades de São Paulo e cidades da região Sul do Estado de Minas Gerais, atingidas também por grandes inundações.

Manifestam, portanto: Irrestrita solidariedade às comunidades atingidas, pertencentes ou não aos domínios geográficos citados; encontram-se em permanente comunhão com todos os esforços em desenvolvimento nos citados centros e em outros espalhados pelo país, que objetivem o esclarecimento da sociedade brasileira a respeito de aspectos geológicos condicionantes ou determinantes dessas ocorrências catastróficas; participam da tomada de posição em relação a eventuais omissões de órgãos de governo que tenham contribuído para a maior gravidade das consequências; encaminham sua contribuição em direção a drásticas mudanças nos procedimentos das autoridades da União, Estados e Municípios em relação à gestão do RISCO GEOLÓGICO em suas diversas manifestações.

Estando cientes de que episódios como os aqui tratados ocorrem regularmente no território brasileiro, de longa data, inclusive já com cobertura abundante da imprensa, a exemplo dos de 1966/67, atingindo o Rio de Janeiro e a região serrana fluminense, os signatários não reconhecem relação de causa e efeito necessária entre mudanças globais do tipo aquecimento antrópico e esses episódios.

Reconhecem, todavia, como fatores do aumento da gravidade das conseqüências desses episódios:

  •  O crescimento rápido da população urbana em parte proveniente de migrações interregionais;
  •  os procedimentos eminentemente burocráticos dos processos de parcelamento e uso do solo, baseados em legislação inadequada e em parte na inobservância ou equivocada interpretação da lei;
  •  a ausência quase total de serviços geológicos contínuos nas esferas estaduais e municipais;
  •  as graves deficiências de formação cultural básica, caracterizadas por generalidades de natureza ambiental sem fundamentação geológica;
  • o profundo desencontro entre a Humanidade e a Terra, proveniente dessas deficiências, que impedem a consideração de que esta é constituída de componentes permanente (arcabouço mineral), transitório (flora e fauna) e itinerante (água), cada um deles idealmente devendo ter tratamentos inerentes a suas naturezas e estados de agregação;
  •  em relação ao componente itinerante acima, a gestão urbana da água praticamente reduzida às dimensões suprimento e drenagem, impedindo a exploração de possibilidades geológicas fecundas, de resultados comprovados, como a solução consorciada de disposição geologicamente orientada de resíduos inertes com o controle do escoamento pluvial urbano;
  • as graves carências de cunho sócio-econômico de grande parte da população;

Diante do acima exposto, e considerando as amplas possibilidades de contribuição do conhecimento geológico para que sejam drasticamente reduzidas as graves perdas materiais e humanas que acidentes geológicos previsíveis têm provocado, resolvem, assim, propor à sociedade brasileira em geral e às autoridades públicas em particular, dos poderes legislativo, executivo e judiciário, no que couber a cada um, as seguintes medidas:

1)      Determinação de remoção, em prazo a ser tecnicamente definido, de assentamentos geologicamente considerados inviáveis, com reassentamento em áreas reconhecidas como seguras em estudos geológicos adequados nos termos da Lei 6766/79;

2)      Implantação de intervenções geotécnicas e de urbanização nas áreas onde as situações de risco forem passíveis de minimização;

3)      Estabelecimento, em lei, de indenização em rito sumário por morte comprovada em acidente geológico, tomando por referência os níveis de indenização praticados internacionalmente, e por perdas materiais igualmente comprovadas indenização em rito normal, baseando-se em  valores de mercado, e condicionada à comprovação de inexistência de dolo por parte dos postulantes, sujeito às penas da lei;

4)      Revisão da legislação de ordenamentos territoriais, especialmente do Código Florestal, quanto à sua aplicação ao meio urbano, considerada incompatível com a natureza particular da Cidade, em especial por dispensar e até impedir a aplicação contextualizada do conhecimento geológico, além de gerar a formação de corpos de água potencialmente insalubres e estimuladores da propagação de vetores;

5)      Implantação de um sistema nacional de controle do risco geológico centrado no governo Federal, com ramificações estaduais e municipais vinculadas, à semelhança do Sistema Único de Saúde SUS, do qual constem, obrigatoriamente, pelo menos:


  • Programa articulado entre União, Estados e Municípios de levantamento geral de todos os documentos da cartografia temática relacionada, existentes no Brasil, Estados e Municípios e sua catalogação e geração de arquivos digitais para consulta de modo a comporem um banco de dados acessível aos encarregados de estudos locais;
  • Organização de banco de dados meteorológicos, climatológicos, de cartografia básica e temática em escalas reais apropriadas aos estudos regionais e locais, tornando-os, não importa sua fonte geradora, exceto os de confidencialidade garantida por lei, disponíveis para a consulta técnica local;
  • Estabelecimento de linhas de pesquisa geral ou vinculadas a particularidades regionais em programas de cooperação com universidades e centros de pesquisa conforme as suas vocações naturais e qualificação dos respectivos recursos humanos;
  • Criação de serviços geológicos estaduais; nos moldes dos já existentes, criação e aparelhamento de departamentos relacionados ao risco geológico conforme as suas manifestações regionais vinculadas aos aspectos geológicos, fisiográficos, vegetais e climáticos;
  • Garantia a todos os municípios de pequeno porte territorial e de população, por agrupamentos municipais, do serviço geológico local em permanente conexão técnico-científica com o serviço federal e o estadual.
Finalmente os signatários conferem o necessário realce ao caráter complementar e organicamente integrado das medidas propostas, inclusive a indenização em rito sumário, cada uma delas essencial ao melhor êxito do programa em benefício da população brasileira.





Belo Horizonte, 16 de fevereiro de 2010

Cláudia de Sanctis Viana
Edézio Teixeira de Carvalho
Eduardo Antonio Gomes Marques
Frederico Garcia Sobreira
Leonardo Andrade de Souza
Luís Bacellar
Maria Giovana Parizzi
Fábio Henrique Dias Leite – Secretário


16 de fevereiro de 2011

A Imprensa e a cobertura Ambiental

Caros amigos, coloco a disposição de vocês entrevista feita na Rede Minas.
O acesso ao material, dividido em duas partes, é feito pelo link abaixo.
Saudações,



Edézio Teixeira de Carvalho.




27 de janeiro de 2011

O vernáculo da Terra


O vernáculo da Terra [1]
Geocentelha 324

BOLT e outros em “Geological hazards”, 1975, expuseram plano de aviso para tsunamis do Pacífico. No rescaldo do ocorrido no Índico, tema recorrente foi o aviso de tsunamis. Vendedor da região, homem simples e prático, sugerindo reflexão mais profunda sobre o tema, disse: “Vocês avisam-me e eu subo no coqueiro. É isso?”. O plano do Ministro não consegue evitar conexão entre o sistema de aviso que parece ser a sua alma  e a preocupação do verdureiro. Não digo que não reduza óbitos, mas possivelmente com consequências colaterais terríveis, como a vivida por humilde senhora, em ocasião semelhante, na terceira geladeira, quando eu não tive mais de 4, duas em uso. Quem perde, compra e paga geladeiras em sequência, consegue sim pagar prestações justas de uma casa segura. Em janeiro de 1997 escrevi o artigo “A dorsal do risco”, inédito e atual, porque não avançamos na sua gestão e sei que regredimos naquilo em que alguns supõem termos avançado — a percepção, extremamente contaminada por grosseiras simplificações amplamente difundidas. Um exemplo? Às vezes “torço” para que algumas bocas de lobo não funcionem idealmente porque, quanto mais eficientes sejam, mais morte e destruição levam para os fundos de vale temerariamente ocupados. A dorsal do risco teria outro nome; dorsal aí seria a qualidade do programa, estruturado com a cabeça no governo federal (concepção geral, ciência básica, indenizações), espinha dorsal nos estados (organização da tecnologia regional) e os membros (ação executiva municipal). Organização semelhante (com os defeitos que tenha) ao SUS da área de saúde.

Linhas gerais: O governo federal forma conselho regionalmente representativo, que: Analisa e propõe imediata remoção de áreas de risco inviáveis; propõe áreas receptoras com as respectivas obras preparatórias; áreas marginalmente viáveis são objeto de programa mínimo elaborado pelo Conselho;  propõe revisão do aparato legal, inclusive indenizações por morte em rito sumário; estuda a vocação das universidades para formação de quadros (biólogos, geógrafos, geólogos e engenheiros) e geração de conhecimento. Estados que nada tenham estruturado regionalmente senão talvez CEDECs, com seu importante trabalho, teriam mapeamentos regionais articulados com o Serviço Geológico Nacional. Inúmeras cidades têm problemas idênticos e nenhuma capacidade de gerar mapas geológicos e cartas geotécnicas, e, creiam, são incapazes de recebê-las tecnicamente.

Vi casas que podem ser de profissionais liberais em locais cheios de avisos geológicos evidentes. É lamentável que cidadãos de instrução superior não percebam. Estão esquecidos de que a geologia é o vernáculo da Terra, sobre a qual precisamos aprender o mínimo para viver. A pedra imensa ao lado da casa rolou naturalmente há cem ou mil anos. Como ela, pode haver dezenas ou centenas esperando por sua vez. Lembremo-nos de que o melhor governo não pode tudo.         



Belo Horizonte, 22 de janeiro de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.



[1] O Tempo; Opinião; 27/01/2011; p. 19

17 de janeiro de 2011

Ignorância do Inocentes

Ignorância do Inocentes [1]
Geocentelha 323

Já me declarei ignorante em muitas situações, especialmente sobre minha saúde. Hoje estou em caminho mais seguro e agradeço aos médicos. Todos têm direito à ignorância, inclusive executivos públicos individualmente. Exceção é o ente governo. Este não. Além do imenso pesar pelos mortos e atingidos pelas chuvas, confesso grande frustração pela pregação infrutífera. Face ao risco geológico a humanidade é criança debruçada na janela: não distingue o décimo andar do térreo. A ignorância que leva ricos e pobres a residirem em áreas de risco ou mal preparadas para seu controle tem explicações, que deveriam ser levadas em consideração antes de concluirmos que foram punidos por ela. Misturada com ignorância, real ou não, pode estar presunção de que aquele ente, mais capaz, já avaliou a situação e deu-a como boa.

Tem acontecido de tudo: A água retoma seu lugar nos fundos dos vales porque todo ano perde um pouco do solo poroso das terras altas, como vimos na serra fluminense, e fica sem lugar lá em cima; então tem de descer encontrando no caminho ruas e casas implantadas no lugar errado. O processo geológico não tem como repor esse solo lá no alto até o ano vindouro. Conclusão: Nem é preciso chover tanto para que a tragédia se repita; pode chover até um pouco menos. É claro que nas altas encostas, o terreno pode ser naturalmente instável e geólogos foram formados especialmente para serviços como o de identificar e avaliar instabilidades naturais.

Erramos também na geração de situações de risco impensáveis: Pode uma barragem feita, entre outras coisas, para proteger cidades vale abaixo, fazer o oposto? Tanto pode que se repete frequentemente. Portugueses costumam reclamar dos espanhois, que segurariam o que podem das águas do Tejo em Alcântara e quando a chuva vem em excesso, soltam tudo com Lisboa rio abaixo. Franco da Rocha (SP) é repetição exata de Lisboa no caso. Uma árvore matou uma mulher. Árvores têm matado pessoas porque, de repente, começamos a pensar, com proverbial ignorância, que árvores devem viver até morrer, o que na cidade é um absurdo, porque a Cidade é ente criado especialmente para substituir a primeira natureza por uma segunda, podendo admitir elementos da primeira, quando necessários, convenientes, sadios, conviventes.

Para a vida perdida sob a árvore, para fluminenses, paulistas e mineiros mortos, temos referência de valor recente de indenização dada pela justiça, a ser paga pela empresa do voo Rio-Paris. Afinal as mortes são todas iguais. Se os governos brasileiros, especialmente os legisladores, fazem tantas leis absurdas, façam agora pelo menos uma que amenize a dor ilimitada dos que perderam entes queridos: Indenização em rito sumário com tramitação preferencial e reformulação orçamentária determinada pelo tribunal. Talvez assim os governos do Brasil resolvam observar as leis que eles mesmos fizeram (Lei 6766/79 Art. 3, incisos I e IV).  



Belo Horizonte, 13 de janeiro de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.




O Tempo; Opinião; 15/01/2011; p.19

7 de janeiro de 2011

Os filósofos morreram?


Os filósofos morreram? [1]
Geocentelha 321

Geólogo, busco enquadramento lógico na atuação profissional e referências fora da minha área porque a lógica é uma só em todos os domínios científicos — suas vestimentas é que mudam. Com alguma experiência acumulada, faço leituras críticas de temas recorrentes sobre a água. Repito 2 linhas de argumentos: A primeira diz que 70% da superfície da terra é água (oceanos, salgados). Descartando, além da água salgada, a das calotas polares e a subterrânea de difícil acesso, teria a humanidade acesso apenas a cerca de 0,001% da água planetária. Fica parecendo que o planeta foi mal projetado, com muita água inútil e pouca utilizável. Dois equívocos num só, primeiro porque a água oceânica nada tem de inútil, sendo a mais abundante reserva de água doce existente, contaminada por sal, que fica todo para trás na evaporação, a ponto de poder o paulistano beber hoje a água que evaporou ontem ao largo do litoral de Santos, e que, voltando ao mar (segundo equívoco) poderia tornar várias vezes ao ano à mesma função. A segunda afirmativa é a que associa a produtos a quantidade de água que sua produção consome. Na realidade a água atravessa o processo de produção do boi, da galinha e do repolho. Então, sejamos claros: o que é consumido é o processo de colocação da água à disposição de cada uso.

Então lembro-me do mito da caverna, alegoria imaginada por Platão em conseqüência da condenação à morte, por dizer a verdade, de seu mestre Sócrates: Lá, fora da caverna, à luz do dia, a realidade mostra que não existem monstros, pois em verdade o que assim parece são sombras dos próprios cavernícolas projetadas nas paredes da gruta pela fogueira acesa.

Então nem temos à disposição apenas 0,001% da água da terra, nem consumimos de fato uma gota d’água  na produção de qualquer coisa. Toda aquela gigantesca quantidade de água está à nossa disposição todo dia, e ela, na condição de residuária, de um modo ou outro, poderá voltar a uso útil em sua odisséia de volta ao mar, passando pela elaboração em série de vários produtos (reúso).

A insuficiência lógica daquelas afirmações está em não perceberem onde está o verdadeiro problema que de fato existe: a dependência total das águas pluviais da existência de quantidade de solo suficiente para abrigá-las numa estada idealmente prolongada sobre a terra. Essa quantidade de solos está em franca redução desde a revolução agrícola, por questão de lógica extremamente simples: Desmatando indiscriminadamente, e permitindo a erosão do solo, teremos sempre menor eficiência na infiltração da água no solo desmatado, e teremos sempre menos solo para receber a água, porque o ciclo da água que pede abrigo é anual, enquanto o tempo de reposição do solo perdido é milhares de vezes mais prolongado. Então a lógica nos diz que antes de faltar água, falta solo para recebê-la. Os filósofos citados estão vivíssimos e há um em cada ser humano que resolva pensar.
    


Belo Horizonte, 22/12/10

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.



[1] O Tempo; O.PINIÃO; 07/01/2011; P. 19