6 de julho de 2017

Que fazer pelo São Francisco VII



GC 427 QUE FAZER PELO SÃO FRANCISCO VII

Concluída a sequência do rio das Velhas, ou entramos diretamente pelo São Francisco ou buscamos o alto São Francisco ou os demais afluentes mineiros cujas diferenças são incidentais, não metodológicas. Pensei, entretanto, em princípios que chamo geológicos, embora compartilháveis com outras áreas científicas. Passo-os abaixo evitando ser prolixo:
·        Princípio do vaso fechado: O que deixamos de usar ou consumir num dado local terá de ser buscado em outro. Se não usamos a água subterrânea do território urbano, teremos de buscá-la fora da cidade; se submetemos o território urbano a drenagem excessiva, a água subterrânea será recurso mais escasso, o que, na prática, dá na mesma. Isto tem reflexo na sustentabilidade, o que é gravíssimo para o São Francisco na épica travessia da RMBH, maior mancha urbana da bacia.
·        Princípio das soluções compartilhadas: Tipicamente aplicável a casos do rio das Velhas,
·        especialmente no que chamei passagem heroica  pela RMBH, sendo bons exemplos: Usar voçoroca ativa, inativa, ravina seca, cavas abandonadas, para receber resíduos urbanos, como botafora de escavações, entulho de caçamba (partes sólidas), inclusive em processo de descomissionamento (que deveria ter sido feito na de Águas Claras, serra do Curral em Nova Lima, RMBH). No caso, uma ocorrência problemática pode ser a solução da outra. As situações são urbanas principalmente, mas não existe nada mais burro e feio que botafora viário no meio rural ao lado da voçoroca, sem aproveitar a oportunidade de reabilitá-la, sob a alegação da presença de nascente,  que, em verdade, seria beneficiada pela intervenção em100% dos casos.


Pedreira urbana na RMBH que poderá ser usada para a disposição de resíduos após o fechamento.


·        Princípio do uso tolerado ou corretivo: É evidente que o uso para pisoteio de uma pastagem com até 100% de declividade é rigorosamente incompatível com o controle da erosão. Veja o leitor, por exemplo, pelo Google Earth, pastos de pisoteio na chegada a Governador Valadares de quem vai de Teófilo Otoni. No caso, o uso tolerado ou corretivo poderia ser capineira para corte, canavial, reflorestamento puramente ambiental ou de fins comerciais, desde que controlando a erosão laminar.
·        Princípio da obrigação de estado: Governos desatentos não percebem a vinculação da voçoroca do alto rio das Velhas com degradação territorial de escala continental. Toda vez que a degradação ultrapassa limites de regeneração espontânea, ter-se-á tornado evidente que não poderá mais o Estado deixar de assumir sua evidente obrigação de promover intervenção técnica de reabilitação territorial, porque não se trata mais de problema pontual, de efeito localizado. Com tal reconhecimento da realidade, abriria o Estado campo aos profissionais para aplicação dos princípios científicos que lhes foram ensinados a custo muito alto.
            Aos 70 anos de idade e 46 de geólogo, não concordo com vários dispositivos legais, em especial integrantes do nosso Código Florestal, em parte significativa responsável pela destruição do São Francisco. Um dos dispositivos a comentar é a definição de áreas de preservação permanente exclusivamente com base em configurações topográficas. Toleraria que fossem mantidas como referências indicativas, a serem confirmadas nas diversas situações reais encontradas. Muitas vezes a declividade baixa em nada favorece a estabilidade natural e a resistência ao processo erosivo. No entanto estão lá os limites fixados por lei afastando a ciência[1]com admissibilidades irresponsáveis. Acabou há décadas o estoque de territórios virgens em 60% do território nacional a acenar com fronteiras agrícolas; esses 60% constituem corpo territorial enfermo a tratar com o máximo cuidado.
            Volto ao assunto em artigo especialmente elaborado para o fim.    


Belo Horizonte, 06 de janeiro de 2017
_______________________________
Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo


[1] Ver Legislação ambiental e exercício profissional; 11º Congr. Bras. de Geol. de Eng.a e Ambiental. ABGE, Florianópolis, SC.  2005.


18 de abril de 2017

Distorção da verdade



                                               GC 426 DISTORÇÃO DA VERDADE

Vinha o conhecimento formalmente admitido dos arredores espaciais da Terra como jardins e pomares rodeando a casa (Ptolomeu), até que Copérnico propôs mudança drástica entre as posições da Terra e do Sol, indo o Sol para o lugar da casa e a Terra para posição secundária junto aos demais planetas. Um certo Giordano Bruno aderiu e foi supliciado pela Santa Inquisição. Galileu teria renunciado a suas convicções para salvar a própria pele. Mais tarde prevaleceu verdade mais ampla, entrando outros componentes, que sobre a geometria e história do universo não para de mudar.
De maneira não muito diferente do que antecedeu a revolução de Copérnico, estabeleceu-se no Brasil um código florestal todo ele baseado em critérios topográficos para delimitação de porções de terras a serem manipuladas cada uma conforme a sua classificação, como se fosse o povo brasileiro todo burro e não apenas aqui e ali destituído de dignidade e de amor à sua terra.
Não existe aqui a pretensão de promover sofisticada análise de aderência do dispositivo legal ao próprio objetivo, mas uma visão simplificada de lógica dos resultados práticos a que ele conduz em casos concretos.
O primeiro ponto que se justifica considerar é a APP das cotas superiores a 1800 m. Pela necessidade real,  parece próxima de inteiramente dispensável, porque não há no Brasil áreas de extensão significativa acima dessa cota. Portanto o impacto de sua ocupação e uso caso permitido seria diminuto. Por outro lado temos vizinhos andinos com extensos territórios ditos páramos ou altiplanos em cotas superiores com espécies vegetais que poderiam ser adaptadas a pequenas extensões de equivalentes brasileiros. A eventual adaptação teria consequências boas para o Brasil. Para não deixarmos de invadir a intimidade de outros países, vi recentemente estrada de ferro chinesa com severos problemas de manutenção em cotas superiores a 4.000 (!) m. Para quem não sabe o que isso significa, trechos dela foram implantados no que chamamos permafrost, região de solos permanentemente gelados, com frequentes problemas de fixação do piso e trilhos, e se lá existem vias, existem áreas produtivas, que usam tais terrenos, até 2.200 m acima do nosso limitado limite! E existe um tal topo de morro frequentemente mais estável que partes das associadas encostas, principalmente na inacreditável extensão de um código florestal feito para o meio rural adaptado ao meio urbano!
Indo para a beira do rio, encontramos APP’s de nascentes, brejos, lagos e cursos d’água, mais uma vez numa limitação de uso que em países europeus às vezes não passam de 5 m. Numa APP de 50 m de raio, ou 30 m de largura quem desejar fazer modesta plantação de inhame, atrás exatamente da água natural, tendo que obedecer a tais limites, poderá ter de adotar dispendiosa irrigação com custos financeiros e ambientais evidentes, ou então desistir do inhame e de inúmeros outros plantios igualmente dependentes de água a nível raso. Tanto a nascente quanto o curso d’água, no caso, por hipótese, a exemplo da montanhosa Minas, têm, à beira d’água, o começo de uma subida de alta declividade, de modo que a não mais que 10 m dessa água a encosta já subiu 5 m ou mais. Daí para cima o lençol freático já ficou muito distante do inhame para poder nutri-lo sem rega. Então nem vou falar do arrozal do sudeste da Ásia tantas vezes plantado dentro d’água.
Não se pense que o argumento acima significa perder a preservação permanente de grandes áreas, porque, se se desse ao conhecimento técnico liberdade criadora, encontraria ele lugares mais lógicos a preservar nas absurdas declividades permitidas entre, por exemplo, os limites de 50 e 100% da espantosa e burra admissibilidade geral, que nesse caso, pelo menos, poderia ser variável por modalidade de uso à disposição da inteligência do proprietário nos casos mais simples e da análise técnica dos especialistas (exemplificadamente boi com seu cortante casco, e trator-de-morro-abaixo poderiam ser substituídos por plantio permanente muito menos agressivo).
Nas minhas cogitações ao escrever estas linhas vejo finalmente algumas de milhares de “nascentes”, em verdade fundos de voçorocas, por exemplo, e essas “nascentes” tratadas como nascentes, em verdade o dispositivo geológico tecnogênico destrutivo em vigoroso treinamento para arrancar solo da terra e rebaixar o lençol freático, papel que ele sabe exercer muito bem, e nada posso fazer mesmo tendo sido preparado pelo povo brasileiro, em boa escola de geologia, para esse nobre mister. Assim sendo, quando morrer, peço que ponham no meu túmulo que, mesmo não tendo seguido o destino de Giordano, morri geólogo envergonhado de todas as voçorocas não tratadas do solo brasileiro em consequência de um certo código florestal que não valoriza nem explora a inteligência humana.
    
Belo Horizonte, 25 de fevereiro de 2017.

__________________________
Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo

7 de março de 2017

Que fazer pelo São Francisco VI


GC 425 QUE FAZER PELO SÃO FRANCISCO VI



    Interrompi com o Artigo GC 426 a sequência do São Francisco, que agora retomo no mesmo trecho do GC424, porque não acredito na reabilitação do rio, nela incluindo milhares de intervenções que, mesmo sendo conduzidas por especialistas, devessem a cada uma solicitar autorização especial para a implantação, porque é isto que exigiria a intervenção em cada APP, mesmo que a nascente que a justificava tenha deixado de ser nascente com recente alteração do Código Florestal. No trecho o rio envolve-se menos que o metropolitano com ambiências urbana, mineral e viária. Corre sobre o Grupo Bambuí, subgrupo Paraopeba indiviso, no médio curso; no baixo, a oeste da serra do Cabral, corre sobre coberturas detríticas. A homogeneidade do sentido sul-norte contrasta com as seções transversais, que mostram a oeste coberturas sedimentares do Cretáceo dispostas como tabuleiros e a leste formas salientes em alinhamentos norte-sul do Supergrupo Espinhaço, convivendo com intrusivas básicas e o Complexo Gouveia. O lado oeste com declividades suaves e formações receptivas à infiltração, enquanto o lado leste, salvo nos topos, tem declividades acentuadas e menor receptividade litológica à infiltração. Observação atenta dos cursos d’água locais revela leitos assoreados por solos claros (arenosos), por influência dos quartzitos, e pela alta energia do fluxo, que leva as porções finas em suspensão, deixando a areia no leito. Abaixo imagem do dia com visualização de dispositivos aplicáveis de controle de enchentes.

1 – Barragem com espelho dágua e parque em reservatório assoreado. 2 – Casas com reservatório enterrado. 3 – Talude  com mureta de pé contendo materiais erodidos. 4 – Posto de gasolina com reservatório. 5 – Botafora estabilizado e arborizado. 6 – Edifício residencial com reservatório sob o telhado. 7 – Muro de contenção com enchimento de terra a montante, revestido com vegetação. 8 – Via local de paralelepípedo, blocos intertravados perfurados, ou pé-de-moleque. 9 – Via ou pátio impermeável.




Hidrelétrica no Paraúna com assoreamento de alta mobilidade em face das altas declividades.




    Admitindo o Velhas à esquerda do desenho acima de área urbanizada com cuidados especiais, notam-se corpos porosos 1, 3, 5, 7 fáceis de implantar, favorecendo a infiltração; 2, 4, 6 são casas e prédio que aproveitam os telhados como coletores ideais de águas pluviais; 8 via local permeável; 9 único dispositivo impermeável. São todos implantáveis em cidade que não os tenha feito desde a fundação. Ainda no desenho: Árvores escolhidas para funcionarem como dispositivos de sucção podem, nas áreas menos estáveis, drenar o terreno para reduzir o risco de deslizamento. Ainda mais, se se observar com atenção o leito do Paraúna no Google Earth, ver-se-ão acumulações de areia em locais favoráveis para a lavra, em especial uma a montante da usina hidrelétrica (imagem acima), em que o período chuvoso é capaz de repor sazonalmente o material levado, por exemplo, pelo nosso já conhecido sistema de sifonamento. 
    Não há nada impossível se pretendemos, de fato, salvar um rio.
 
Belo Horizonte, 03 de março de 2017
_______________________________
Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo