16 de maio de 2013

Ao cair da chuva

Ao cair da chuva [1]
Geocentelha 351

Ao cair da chuva escrevo desviando-me das sombras da catarata que confio ter dias contados nas mãos da medicina reparadora da natureza, operada pelo único membro dela capaz de corrigir seus defeitos por ações propositadas, conduzidas por lógica comum a todo campo científico. Desvios da constituição normal do corpo humano, mais complexos que a prosaica catarata, são corrigidos no útero habitado por embriões até recentemente refratários a correções oportunas.

O que fazemos ao corpo humano, por que não à terra? Porque aí proibimos a ciência, substituída pelo arbítrio de códigos, no pedestal da ignorância grandes monumentos à arrogância humana; pelo arbítrio também de paradigmas técnicos que, ritualisticamente, expulsam a água de nossa presença tantas vezes sem necessidade. Ouço gotas de chuva pipocando no telhado, e fico satisfeito de saber que ficarão armazenadas em reservatório até que sejam chamadas a amenizar o calor de sol causticante sobre os canteiros da horta. Imagino a chuva que cai no vão inóspito de centenas de milhares de voçorocas do Brasil, veias abertas do solo brasileiro, para tomar logo o rumo do mar aonde chegará em poucos dias.

A seca do Nordeste poderia ser mais amena e a chuva em Teresópolis também, mas como? Todos os rios que morrem no mar nasceram na atual foz e escavaram seus leitos do mar para montante até chegarem às atuais nascentes no coração dos continentes, coração maneira de dizer, porque o afamado Tietê e o caudaloso Amazonas saem de escassas dezenas de quilômetros do mar para empreenderem jornadas de milhares de quilômetros no sentido oposto. E associamos a cada nascente que nutre esses rios e aos inúmeros cursos que para eles convergem a nobre faculdade de sustentar a vida. Na perspectiva do acesso direto à água é verdade, mas é verdade também que a nascente é o portal a partir do qual águas continentais deixam o seguro abrigo no seio geológico da terra para enfrentarem as vicissitudes da vida subaérea, sujeitas à evaporação precoce, à poluição e ao retorno precoce ao mar: As águas que aí vemos estão dizendo-nos adeus! Por que não retardar esse desenlace?

Amenizar os efeitos negativos do excesso de chuvas é capturar no sistema geológico o máximo possível das águas pluviais que caem hoje. Amenizar a seca de amanhã (quem guarda tem) é ter feito isto no tempo das chuvas. Insensata humanidade: Não atrapalhe mais sua própria vida e resolva de vez excluir do clube das “protegidas” as terríveis nascentes das voçorocas. Assim você será mais feliz; compreenderá melhor por que as geociências brasileiras estão de luto pela perda de Aziz, a quem o Congresso perdeu a oportunidade de encomendar minuta coerente para o Código Florestal, e de Grossi Sad, que lhe proporcionou poder contar com parte das terras raras de que tanto precisa. Mais sábia, você partirá para conquistas maiores proporcionadas por imensas possibilidades menos óbvias.



Belo Horizonte, 12 de junho de 2012

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo




[1] O Tempo; O.PINIÃO; 21/06/2012; p. 19


6 de abril de 2012

Três tempos

Três tempos [1]
Geocentelha 348

André, 11 anos, pergunta ao pai a diferença entre tempos geológico, histórico e humano. O surpreso pai dá resposta deontológica com o fim de despertar no filho o dever da reflexão pessoal, oposto do que fazem leis que não só dispensam a ciência, mas que a afastam deliberadamente de debate fecundo, e achou oportuno confiar a este geólogo acrescentar algo que achasse significativo à resposta. Vivemos à espera de consultas do tipo por incontáveis séculos, vendo o fato geológico promover ou modificar o processo geológico e o processo geológico criar ou modificar o fato geológico, ambos desprezados pela humanidade, esquecida de James Hutton, para o qual na Terra “tudo está em movimento”, vindo-nos daí a revisão da idade da Terra pela concepção de tempo geológico fluente numa sucessão de fatos e eventos que nos afastam da origem do planeta e nos aproximam do seu fim. Algumas daquelas sucessões repetem-se ciclicamente. A água vai e volta, erode e para. No ano que vem haverá menos terra para absorver água, porque o tempo geológico de substituição do solo erodido mede-se em centenas, milhares, milhões de anos. Então a representação geométrica do ciclo da água não pode ser um círculo (plano) mas uma helicoidal, para bem representar o gradual esgotamento da sustentabilidade geológica.

Essa linha de tempo começou há cerca de 4,5 bilhões de anos, e terá outros tantos ou mais pela frente, até esgotar-se o estoque de elementos radioativos responsáveis pelo aquecimento da camada terrestre que chamamos manto e pela tectônica de placas, por sua vez responsável pelo surgimento de montanhas novas como os Andes. Contra esse soerguimento de montanhas atua a energia solar, que, por meio do ciclo da água, as desgasta e leva seus detritos ao mar. Quando o estoque terminar, a energia solar não terá resposta e levará todas as terras continentais aos mares do mundo, que se transformarão num oceano global cobrindo todas as terras hoje emersas. Nesse hipotético equilíbrio final, a ciência geológica, em suas aplicações ao planeta, deixará de fazer sentido porque a terra ter-se-á tornado um objeto puramente físico, geologicamente morto. Fora da ciência geológica hipótese mais drástica prevê a extinção da Terra e do tempo geológico. Absorvida pelo sol, mudado em gigante vermelha, ela não terá sequer o consolo da sobrevivência puramente física acima descrita. 

O tempo humano, do ente biológico, mede-se pela paleontologia. Seu limite pode ser o do planeta, mas poderá ultrapassá-lo, se antes a espécie humana abandonar seu lar solar.

O tempo histórico, incluído no tempo humano, é o tempo cultural, que se vai dilatando com a pesquisa arqueológica, tendo por limite a origem da espécie, a idade humana.

Do ponto de vista deontológico, não está nas obrigações do homem dilatar indefinidamente o tempo geológico. Certamente muito menos: O mais possível a manutenção de solo arável sobre a terra.



Belo Horizonte, 05 de março de 2012

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo



[1] O Tempo; Opinião; 06/04/2012; p. 15

5 de março de 2012

O Método Geológico

Caros colegas, coloco a disposição o texto "O Método Geológico Aplicado à Implantação de Aterros de Resíduos", que trata da recuperação de áreas degradadas pela disposição controlada de resíduos de construção e demolição.


Link para download: Método Geológico

Exclusão da liberdade

Exclusão da liberdade [1]
Geocentelha 347

“Criar centros de desenvolvimento da tecnologia da gestão à semelhança de centros temáticos que criou a EMBRAPA ...”. Ao refletir sobre a rua sem saída do Código Florestal (qualquer versão), lembrei-me da proposta que incluí no capítulo “A revolução geológica” do livro “Geologia Urbana para todos – Uma visão de Belo Horizonte” que começa com a citação de Han Yu, pensador neoconfucionista do século nono: “Quem se senta no fundo do poço para contemplar o céu há de achá-lo pequeno”. Vi na EMBRAPA o modelo operativo para a revolução geológica e no SUS a organização do Estado para o enfrentamento dos problemas geológicos do nosso cotidiano, especialmente o do risco. Esforços de escassa repercussão, porque desde então (1999), tivemos problemas com grandes perdas em Santa Catarina, serras fluminenses, Nordeste,  em nosso estado e tantos outros.

Sem razões para rever os modelos, envio à EMBRAPA (direção e pesquisadores) consulta que dispensa justificação: Dada a natureza experimental da pesquisa agropecuária, como tratam as áreas de preservação  nas pesquisas de campo? Para melhor esclarecer a profunda angústia que move tal pergunta, ponho-me em situações opostas, a primeira na de quem preza a liberdade que nutre a criação e a segunda na de quem acha que ela não vale nada. Na primeira, sendo a APP intocável, como conseguem aprovação para pesquisa experimental, por exemplo, de arroz plantado dentro d’água? Vocês têm o direito de pesquisar nas APPs, desde que tais ambientes sejam necessários à pesquisa. Sendo missão natural da instituição obter soluções para a agropecuária brasileira, como justificam o uso dos recursos que lhes passo por delegação ao governo, para fazê-las senão para repassar seus resultados a outros povos, visto que não serão usados aqui? Na segunda condição pergunto-lhes: Vocês estão fazendo experimentos de campo em áreas de APP? Quando foi que, como financiador de seus cometimentos científicos, lhes dei a liberdade de pesquisar o que querem, nas sagradas áreas de APP?

Alguns concordam quando digo que importante em política de ordenamento territorial é haver diretrizes gerais de preservação e de reabilitação de áreas degradadas diferenciadas conforme domínios geoambientais definidos por critérios geográficos, geológicos, físicos, químicos e biológicos. Em cada domínio, respeitado o percentual mínimo estabelecido, profissional habilitado fixará na propriedade as áreas de produção e de preservação. Às vezes dizem temer a transição. Não há o que temer: Congele-se o atual que a Lei determina para evitar retrocesso e acompanhem-se as mudanças autorizadas e determinadas pela nova lei. Extinguir-se-ão naturalmente dilemas absurdos como o exposto e o país se beneficiará imensamente do uso do fundamento científico, hoje não só dispensado, mas sujeito a ameaças de devastador efeito.

Uma idade média de mil anos pode suceder ao desvario de uma geração.      



Belo Horizonte, 24 de fevereiro de 2012

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.



[1] O Tempo; Opinião; p. 15; 27/02/2012


13 de janeiro de 2012

Causas entrelaçadas

Causas entrelaçadas [1]
Geocentelha 346

Houve tempo em que as pessoas estavam mais perto da natureza, mesmo morando em cidades, então pequenas, e, no caso de Belo Horizonte, curiosos deixavam suas casas para observar a cachoeira do Arrudas ou do Onça; em São Paulo colega meu disse que não perdia uma cheia do Piracicaba, e eu aos 8 anos não perdia uma do Gualaxo do Sul, ainda hoje só não tão bonito quanto o que vi do Zêzere. Um conhecimento intuitivo vinha chegando com o tempo e com o conviver.

Disse a um amigo que indivíduo que tenha aprendido algo útil jamais se esquece, mas as nações se esquecem facilmente. Basta uma geração. Tínhamos um curso universitário chamado História Natural, com ênfases em geologia, geografia, biologia. Lembro-me de colegas das três ênfases, observando-os de fora, notando que havia distinções filosóficas mais ou menos profundas, mas respeito mútuo, porque discutiam temas ambientais cruzados e todos ganhavam. Terminado o curso, ficaram as licenciaturas de geografia e biologia em ambientes estanques, e não foi criada a de geologia, talvez com uma de duas suposições absurdas, o bacharelado em apenas 20 cursos responder pela demanda desses quadros, ou a matéria ser dividida apenas entre licenciados de outras áreas. Talvez hoje o Brasil tenha uma única licenciatura geológica na UNICAMP. Então, mesmo onde haja a matéria geológica no ensino fundamental em geral, não haverá licenciados em geologia para ministrá-la. As outras licenciaturas estarão sentindo falta do contraditório no ambiente escolar. Bateremos cabeças na questão até reaprendermos.

Escorregamentos dependem, nas cidades, do contexto geológico, dos modelos de assentamento adotados, nem sempre os mais lógicos, das declividades e da forma de escavar e construir, e das chuvas. Estes são os cinco fatores centrais. A geologia, na intimidade de cada contexto geológico geral, abre inúmeros outros fatores.

Rios? Há pelo menos 3 grandes categorias: Os que nascem nas cidades e sobre os quais elas teriam à partida pleno domínio (Arrudas e RMBH); os que passam pelas cidades (Piranga e Ponte Nova) sobre os quais a cidade não tem quase nenhum domínio, senão reduzir o inevitável risco de posição, e os federais (Paraíba do Sul e Campos) sobre os quais nem o estado tem domínio. Escorregamentos ampliam inundações, agora, e levam o reservatório geológico para sempre. Perda de solo é perda d´água certa no futuro. Ponte Nova e Campos dependem em primeiríssimo lugar da consciência verdadeira, solidária, sensível, sem insensatez, das cidades a montante, acostumadas a descarregar jatos d’água sobre as coirmãs; das áreas rurais (governo federal com seu ilógico Código Florestal) e dos estados que estão a montante. Se não for assim, ficaremos à mercê de batalhas por verbas baseadas em argumentos nem sempre bem fundamentados, e muitas vezes oportunistas.

Dinheiro básico e bem dirigido, sim. Mas também reformulação do ensino fundamental já.



Belo Horizonte, 07 de janeiro de 2012

Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo.




[1] O Tempo; Opinião; 11/01/2012; P19


1 de dezembro de 2011

Roleta japonesa

Roleta japonesa [1]
Geocentelha 342

 Todos sabemos da roleta russa. Na versão trágico-romântica, oficiais faziam disputa temerária: Colocava-se uma bala na câmara, girava-se o tambor e atirava-se apontando para o próprio ouvido. Noutra versão isto era feito por condenados, que tinham aí oportunidade de ganhar a vida ou a liberdade. Se a bala tivesse parado na direção do cano, tínhamos o suicídio, acidente, como queiram. Assustados com isso, lembremos os famosos pegas com veículos e motos em versão nossa da roleta. Os japoneses têm versões de algo parecido, não bastasse sabermos dos pilotos-camicase da guerra, que lançavam seus aviões sobre alvos americanos, sem probabilidade alguma de escaparem. Na gastronomia sofisticada restaurantes servem caríssimo peixe, portador de veneno violentíssimo, retirado por especialistas no preparo. Acidente que pode ser fatal ocorre quando, por descuido ou imperícia, o veneno vai com o peixe servido.

Fiquei admirado não só com a ordenada disciplina dos japoneses nos dias seguintes ao terremoto que vitimou Sendai, mas também com a rapidíssima reconstrução em curso. Comparo com a lentidão das nossas reconstruções, com auxílios materiais a Nova Friburgo ainda não distribuídos, apodrecidos, talvez desviados, enquanto localidade do Japão já devolveu doações internacionais não utilizadas. Admirável!

Há contudo uma espécie de fatalismo japonês sobre o qual faço observações. Verifico pelo Google Earth que muitas cidades japonesas estão temerariamente implantadas ao nível do mar com folga comum da ordem de poucos metros. É verdade que há guarnições sob a forma de quebramares. Recorro a Bolt e outros (Geological Hazards, Springer Verlag, N. York, 1975, p. 133) onde vejo lista dos grandes tsunamis, que começa no Mediterrâneo com a destruição da civilização minoica em Creta provocada pela erupção de Santorini e consequente tsunami; continua no Atlântico (sim, senhores), com o tsunami que atingiu Lisboa em 1755; Índico e Pacífico (Java, Havaí, Peru-Chile, Alasca, Japão). No Japão destaque para um de 1896 que atingiu mais de 20 metros de altura e matou mais de 26.000 pessoas. Por que o Japão continua a urbanizar a orla baixa, com defesas precárias representadas por quebramares baixos? Talvez o revólver esteja apontando para ouvido alheio... Tsunamis podem ser erráticos, mas sempre ocorrerão; as cidades almejam a eternidade e estarão sempre lá. Haverá sempre uma no caminho de um deles. Nada impediria que o assentamento observasse folga mínima de pelo menos uns 20 metros. Quem tem tecnologia de edificações sismorresistentes tão desenvolvida, poderia gerar essa folga de 20 metros com aterros de resíduos e de desassoreamento de rios. Afinal acabaram de construir aeroporto em ilha artificial com material dragado do mar! Bolt e outros citam sistema de alerta transpacífico desde os anos 50. Na abramos mão deles, mas apenas como recurso auxiliar. De madrugada, pouco podem.



Belo Horizonte, 12 de novembro de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo



[1] O Tempo; Opinião; 01/12/2011; p. 19

13 de outubro de 2011

Sublimação da perversidade

Sublimação da perversidade [1]
Geocentelha 340

O espaço geológico não é misterioso como o de Einstein. Já o tempo tem seus mistérios. Alguns olham-nos com ironia quando atribuímos idades de bilhões de anos a fatos geológicos. Entretanto não é só com esses tempos que trabalha a geologia. Num curto ciclo anual o sistema geológico sofre transformações severas como a da sucessão claridade-escuridão. O espaço geológico é ocupado por três componentes distintos: O permanente, o transitório e o itinerante. O primeiro é o arcabouço mineral, não tão permanente, mas assim comparado aos demais; o segundo é formado pelo conjunto flora e fauna com diferentes formas de agregação ao primeiro; o terceiro, aqui limitado à água, cujo caráter é particularmente notado nas águas pluviais. A permanente silhueta da serra denota o caráter permanente do arcabouço mineral; a variação de tons e de porte e a substituição regular da cobertura vegetal denotam o caráter transitório da flora; a aparição regular das águas pluviais e a variação da vazão dos rios são expressões do caráter itinerante da água. Em questão de horas, dias, meses, o sistema geológico muda de roupa, de aspecto, de comportamento.

A humanidade introduz modificações no permanente e no transitório, às vezes sem pensar no itinerante. Este age sobre a humanidade sob os condicionamentos naturais, ou reage às modificações impostas aos demais. Nas cidades as modificações impostas ao permanente e transitório são drásticas, e as respostas também o serão. O Edificado nas cidades funciona como uma membrana mais ou menos impermeável, entre o itinerante que chega e o conjunto permanente-transitório, que espera, cheio de gente exposta às consequências. 

O processo é legível e previsível, mas a humanidade não o lê com atenção. No terrível acidente do Nevado del Ruiz na Colômbia (1985) espaço e tempo geológicos decretaram o fim de Armero e mais de 25.000 habitantes. Erupção, fusão do gelo, corrida de lama, submersão de Armero, bem no meio do caminho. Já no corrente ano a onda gigante que chegou a Sendai (Japão) teria no mar 10 metros de altura, mas ao chegar à costa a inércia levou-a a alturas bem maiores. Nos acidentes da serra do Mar e em outros menores por todo o país, o imprevisto, não imprevisível, é o porte. Armero e Sendai, como Nova Friburgo e Teresópolis, foram colhidas por modificações de um espaço-tempo simples. Armero, em risco de posição, sofreu acidente previsto em mapa; Sendai não precisava de mapa, como toda orla baixa do Pacífico; a serra do Mar é velha conhecida. Se meteoro nos atinge, paciência, é risco fortuito, mas desafiar o previsível é oferecer à divindade sacrifícios não pedidos. Não é casual. Num país em que a Lei pensa que pode substituir inteligência e instrução todo evento geológico previsível confunde-se com atos de Deus. Em verdade trata-se de sublimação da perversidade, fenômeno em que os governos não se distinguem muito uns dos outros. 



Belo Horizonte, 02 de outubro de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo.



[1] O Tempo; Opinião; 12/10/11; p. 19

3 de outubro de 2011

Flotação do Pinheiros: Mais mágica frustrada

Agora de forma definitiva o governo paulista anuncia que desiste de implantar o projeto de flotação do Rio Pinheiros, com o qual se pretendia despoluir as águas do rio e reiniciar a produção de energia elétrica na Usina Henry Borden, em Cubatão. Objetivo meritório de recuperar a operacionalidade de um dos projetos energéticos, Billings, mais fantásticos já concebidos no país: o aproveitamento do desnível de 700 metros da Serra do Mar para produzir energia ao pé da serra com a reversão hídrica de águas do Tietê e Pinheiros. Projeto que foi interrompido em 1989 por obséquio do intolerável grau de poluição das águas urbanas de São Paulo.
O caso do Projeto Flotação é exemplar para trazer à tona a facilidade com que administradores públicos se deixam iludir por “mágicas” tecnológicas oferecidas para a solução de crônicos problemas de infraestrutura urbana. O ilusório “passe de mágica” atende as expectativas políticas de nossos governantes em obter resultados de seus investimentos de seu governo a um tempo que viabilize seu aproveitamento e sua exploração político-eleitoral. Ao mesmo tempo, esse encanto com a solução fácil e rápida para problemas crônicos faz parte da enorme dificuldade cultural de nossas administrações públicas trabalharem com perspectivas de médio e longo prazo, com programas que exigiriam continuidade ao longo de sucessivos governos.
Esses atributos os tornam assim vulneráveis a propostas mirabolantes, quando não a propostas espertamente engendradas nos escritórios de grupos privados interessados nos futuros contratos de implantação ou exploração das “mágicas” propostas.
Outro exemplo na ordem do dia são nossos deletérios piscinões, com os quais se prometeu ao governo paulista e prefeituras metropolitanas o mágico fim das enchentes. Estamos aí hoje com vários desses atentados sanitários, urbanísticos e ambientais desvalorizando e poluindo áreas públicas densamente habitadas e as enchentes sucedendo-se, a cada ano mais freqüentes e intensas. Fruto da incompreensível resistência em atacar as verdadeiras causas do problema maior através de um grande e prolongado elenco de medidas não estruturais voltadas a desimpermeabilizar a cidade e a reduzir o assoreamento das drenagens por sedimentos e lixo.
Gastos declarados de 160 milhões de reais na frustrada experiência da flotação na verdade são pequena parte dos prejuízos. E o tempo dedicado ao projeto ao longo de quase 10 anos por diversos órgãos públicos? E o atraso imposto nos estudos e na implantação de medidas técnicas que realmente fariam sentido? Tudo isso vale muito dinheiro e se traduz na prática em maior redução ainda da já baixa qualidade de vida da população. E isso, que preço teria?

Creiam os administradores públicos, não há mágicas no trato da coisa pública. Sejam mais suspeitosos e resistentes frente a ofertas de soluções rápidas e fáceis. Delas desconfiem. E escudem-se para tanto no corpo técnico de suas instituições públicas como o IPT, a Universidade, os vários Institutos de Pesquisa que ainda insistem em sobreviver, nos técnicos de valor que ainda sobraram do esvaziamento dos órgãos públicos, em empresas privadas de reconhecido mérito técnico e ético.

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo
Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)
·  Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e Ex-Diretor da Divisão de Geologia 
·  Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos” e “Cubatão”
·  Consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente
·  Membro do Conselho de Desenvolvimento das Cidades da Fecomércio

26 de setembro de 2011

Morte do geólogo Mario Guedes e do engenheiro Mario Bitencourtt

Considero extremamente importante tratarmos da questão do incidente que nos levou os colegas geólogo e engenheiro. Sou por natureza meio recolhido ao vale alcantilado, de modo que não sou muito exportador da minha própria presença, mas observo com fidelidade a natureza e a humanidade, as duas ao mesmo tempo. Precisamos defender por todos os meios a segurança dos engenheiros e geólogos em seus trabalhos tantas vezes pioneiros, não só pelo fim em si de tê-los vivos e seguros, mas também para que tenham condições de colocar vivas e seguras todas as pessoas que dependem de seus trabalhos, como prometeram em seus juramentos. Não quero diluir a força que devemos colocar na defesa da investigação mais rigorosa. Pelo contrário, exatamente para reforçar nossos argumentos em benefício dela, devemos também apontar para a importância do trabalho que fazem, e como é prejudicial a sua falta à sociedade, não importa de que país, mais ainda quando difusa, sem identificação prévia de sacrificados e de quantos.
Estamos, senhor presidente, assistindo a um cerceamento terrível do trabalho geológico e de outros profissionais. O cerco apertado sobre a não ocupação ou não intervenção em APPs de áreas urbanas está levando profissionais a simplesmente apontarem as ações proibidas. Dir-se-á: "está certo, é a lei que manda". Todavia a lei que manda, a meu juízo inconstitucional, mas isto é outra questão, não manda que eles deixem de avisar o povo que lhes custeia o grau de geólogos, engenheiros e de outros profissionais dos riscos que correrão sem as intervenções ou obras tecnicamente recomendadas.
Sugiro-lhe, portanto, presidente, que contextualizemos, como muito bem fizeram recentemente os juízes nas pressões que movem para o esclarecimento do assassínio que vitimou recentemente uma juíza. Tudo isto digo, senhor presidente, sem qualquer pré-julgamento sobre o que levou à morte os colegas Geólogo Mário Guedes e Engenheiro Mário Bitencourtt. Dada a relevância do tema que muito oportunamente levanta na condição de Presidente da ABGE, peço-lhe compreender a necessidade que tenho de compartilhar esta visão com uma comunidade mais ampla que a da nossa Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e
Ambiental.



Atenciosamente.



Edézio Teixeira de Carvalho
Geolurb - Geologia Urbana e de Reabilitação Ltda