22 de setembro de 2011

Esquecido, atingido, acusado

Esquecido, atingido, acusado
Geocentelha 339

Já disse admitir a possibilidade do aquecimento global. Hoje tenho dúvidas porque meteorologistas e geólogos começaram a falar, estes afirmando estarmos em fase interglacial, mas para grande parte da humanidade são favas contadas e há culpados a punir. A humanidade deve ter cuidado consigo mesma porque não é de hoje que leva à fogueira inocentes, como sempre houve corda à mão para supliciar acusados de furtar cavalos no velho oeste, também às vezes inocentes. A humanidade como um todo, sem culpados a designar especialmente, desde a revolução agrícola, nunca deixou de por em risco seu próprio futuro promovendo a erosão do solo. Lembro que aí há risco muito concreto, principalmente nas regiões montanhosas, onde o principal promotor da erosão é a mente humana e o principal executor o casco do boi, em dezenas de milhões de hectares em declividades entre cerca de 50% até os inacreditáveis 100%, e que esse risco se efetiva ano a ano porque a erosão é sazonal acompanhando as chuvas, mas a reposição do solo não é feita ano a ano, porque o processo geológico gerador de solo é lento.

Montanhas costumam ser o palco que justifica o título. Sobrevoemos Teresópolis de Google Earth, e veremos, comparando imagens do ano passado com as atuais, que os deslizamentos escolheram áreas geologicamente instáveis, ocupadas ou não. Colegas de São Paulo e Rio declaram à imprensa, com variações, que apenas parcialmente a ocupação “criminosa” provocou o desastre. Em muitos casos essa ocupação, sem ter provocado nada, foi atingida por massas deslizantes vindas de cima em processo natural de evolução da paisagem da serra do Mar. Aí posso dispensar o testemunho dos colegas, porque vi fotografias em que casas próximas a fundos de vales, de grande porte, de proprietários diria ricos, escaparam desta feita, mesmo construídas ao lado de grandes blocos rochosos, que, em épocas passadas, certamente rolaram da encosta. Ingênuos? Talvez, como tantos, ricos e pobres, que tenham confiado no critério do poder público quanto à verificação oportuna da segurança de construir lá. Hoje muitos são acusados de especulação imobiliária, entre os que venderam e os que compraram. Afinal esquecidos pelo poder público por eles mantido, que lhes nega o direito à segurança e à informação técnica sobre ela, cláusulas pétreas de qualquer constituição moderna, são atingidos ou correm sérios riscos, e depois acusados de provocarem a natureza. Tenho ouvido dizer de hotéis e até hospitais condenados à demolição sob alegação de estarem em APP. Pois devem estar onde estudos técnicos responsáveis indicarem como a melhor localização. Se não for assim, desaprenderemos tudo, e construiremos cidades verdadeiramente inviáveis. Num esforço mental de personificar o Código Florestal, é praticamente impossível deixar de associá-lo ao alienista de Machado de Assis. Além de Tukushima (2 mortes), aprendamos com Sendai (20.000).      



Belo Horizonte, 17 de setembro de 2011



Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.


13 de setembro de 2011

Artigo Publicado

Prezados, envio cópia para download do artigo " O Código Florestal e o Ócio Intelectual" publicado no jornal Notícia do Dia de Florianópolis. Dia 10 e 11 de setembro de 2011.

Abaixo o link para download.

http://www.megaupload.com/?d=5X3VCINR

5 de setembro de 2011

Livro Geologia Urbana para Todos [Download]



O geólogo Edézio Teixeira de Carvalho disponibiliza seu livro "Geologia Urbana para Todos: uma visão de Belo Horizonte" em formato PDF.


Link para download:
Geologia Urbana para Todos


Edézio Teixeira de Carvalho

Geolurb - Geologia Urbana e de Reabilitação Ltda
(31) 3262-2722
(31) 8205-3123

Patrocinador do ócio intelectual

Patrocinador do ócio intelectual
Geocentelha 338

Considero o Código Florestal atual e futuro bem propositado, mas não me furto ao dever de apontar suas principais falhas de fundamentação técnica e de lógica. Estimulado com a ação do colega Álvaro Rodrigues dos Santos (São Paulo) nesta luta, solicitando aos senadores, em artigo de jornal de grande circulação, que excluam a aplicação do Código Florestal ao meio urbano, por razões técnicas poderosas que levanta, volto ao assunto. Afinal não sou o João Batista que prega sozinho no deserto. Com efeito, por melhor que fosse a qualidade da redação do Código, feito para o meio rural, constitui evidente impropriedade de técnica legislativa estender sua aplicação ao meio urbano sem um mínimo de adaptação (considerando que as exceções abertas são meras tentativas de embelezar Quasímodo) .

Tenho defendido a tese de que as leis de gestão territorial constituem meio, exatamente para não caírem em contradições completamente absurdas. Nem vou pontuar mais uma vez pormenores técnicos, mas apresento dois de lógica simples, já repetidos em conversas ou escritos: Se, por hipótese trocarmos de base territorial com a América espanhola, mandaremos demolir, entre outras coisas, as cidades do México, Bogotá e La Paz,  situadas muito acima da famigerada cota 1800 metros? Esquecemo-nos de vez da história da humanidade na passagem em que o motivo da admiração, talvez com um pouco de inveja, do sábio grego pelo desenvolvimento da civilização egípcia, fê-lo cunhar a famosa frase “o Egito é uma dádiva do Nilo”? E olhando para o famoso rio e seu delta ramificado, aprendemos que grande parte do enchimento de seus celeiros vinha exatamente de terrenos aqui classificáveis como áreas de preservação permanente?

Mas há coisa muito pior sobre a qual tenho insistido. Além de ser um meio, a forma da lei deve buscar o estímulo à reflexão e à experimentação científicas. E fico completamente desesperado imaginando pesquisadores preparadíssimos dos órgãos estatais de pesquisa e extensão limitando seus experimentos ao que a lei-fim permite. É pior, caro leitor, do que isto. Leiamos cruzados o Código Florestal com a lei dos crimes ambientais. Essa leitura foi feita por todos os profissionais dos dois lados do balcão. Do lado público engenheiros, geólogos, biólogos, em geral bem formados, são condenados ao ócio intelectual patrocinado e do lado privado a decepção por verem suas ferramentas de trabalho perderem inteiramente a utilidade por absoluta dispensa de aplicação. E a população, que, se atenta, simplesmente assistirá os projetos de reabilitação de áreas degradadas, de redução do gravíssimo risco geológico urbano, de correção das insalubridades naturais ou antrópicas deixarem de ser feitos simplesmente, sem ser avisada (direito constitucional pétreo, se querem) dos riscos que correrá, porque o ócio forçado pode fazer o agente público esquecer-se de que esse aviso ele jurou passar ao povo.   



Belo Horizonte, 25 de agosto de 2011



Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.

19 de agosto de 2011

O Projeto Manuelzão e a Transdiciplinaridade

Estamos plenamente conscientes das dificuldades inerentes à complexidade da estrutura de governo da UFMG, que sempre precisa consertar o carro em movimento. Mas, ao mesmo tempo, decisões históricas precisam ser tomadas, indo além do senso comum, para mudar o rumo das universidades brasileiras. E estamos aqui solicitando fraternalmente a solidariedade acadêmica aos nossos colegas professores, estudantes e técnicos da UFMG bem como da direção da Universidade, para que examinem nossas ponderações sobre as condições de trabalho do Projeto Manuelzão. Vivemos um momento de intensa angústia e impasse, resultado dos efeitos cumulativos e sinérgicos de adiamentos constantes de decisões por força de circunstâncias conceituais, institucionais e práticas no interior da UFMG nos anos passados. Fizemos a nossa parte nesses 14 anos. Não podemos aceitar passivamente o findar de nossas esperanças de sujeitos do processo histórico e terminar em vão tantos esforços, reconhecidos pela academia e pelo conjunto da sociedade, pelo que estamos realizando em ensino, pesquisa e extensão focados na Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas.

A UFMG não se preparou devidamente para esse momento. A criação de órgãos suplementares ou de núcleos transdisciplinares está na ordem do dia no plano internacional. Na ausência de condições institucionais ideais, é mais conveniente se pagar o preço de deixar iniciativas criadoras aflorarem, trazendo sentimentos novos à universidade, que pisar no freio. É preferível viver uma primavera. Essa atitude será melhor que sufocar essas atividades agora para depois tentar ressuscitá-las. Os momentos não voltam. A história reconhecerá o mérito e a coragem dos dirigentes da UFMG em correr os riscos da mudança, mesmo porque não mudar agora é risco maior. Sabemos que a inteligência emocional move, enquanto a racionalização burocrática paralisa.

A transdisciplinaridade só é possível com a transgressão de fronteiras conceituais e princípios tradicionais de organização do conhecimento. Sim, respeitar as disciplinas é imprescindível, pois geram conhecimentos, mas elas precisam ter liberdade para se articularem. Imaginamos que seja este o sentido de finalmente estarmos todos nos concentrando no campus Pampulha, superando nossa origem de unidades autônomas.

A um Prêmio Nobel de Medicina é atribuída a máxima segundo a qual “o mundo tem problemas, a universidade tem departamentos”. A frase resume o quanto o isolamento das áreas prejudica a pesquisa, o ensino e a compreensão do Universo. A universidade não pode ter muros interiores. A transdisciplinaridade é hoje, inclusive, defendida pelo Conselho de Pesquisa, Ensino e Extensão (Cepe) como uma das prioridades de investimentos e articulações para o desenvolvimento de atividades de ensino, pesquisa e extensão. Mas toda estrutura de poder e de gerenciamento tem por lógica a sua própria
sobrevivência e reprodução, e nessa direção é costume abdicar de seus projetos de transformação, resistindo às mudanças. Porém, elas não são mais importantes que as transformações qualitativas impulsionadas pelo desenvolvimento das forças produtivas do conhecimento.

O desenho institucional da UFMG está defasado frente ao desenvolvimento das iniciativas acadêmicas mais avançadas. Para fazer, há muito mais obstáculos que para deixar de fazer; não faz nem deixa fazer. Essa lógica é perversa. No nosso caso, não nos move nenhum sentimento menor, seja de corporativismo, de propriedade intelectual, de poder, trata-se unicamente de uma linha de trabalho em torno de uma teoria e de uma proposta acadêmica de ensino, pesquisa e mobilização da sociedade, que conquistaram amplo respaldo da comunidade acadêmica e da sociedade em geral.

Reivindicamos que nos seja concedido o terreno já prometido para construirmos o Centro Transdisciplinar em Bacias Hidrográficas e Saúde Coletiva Ecossistêmica/Projeto Manuelzão/UFMG, para integrar as nossas atividades acadêmicas de ensino-pesquisa, extensão e pós-graduação dos diversos departamentos e disciplinas que integram o Projeto Manuelzão, arcando nós com os custos de construção e dos equipamentos através de captações de nossa responsabilidade. Isso dará plenas condições para o funcionamento do nosso Conselho Gestor Transdisciplinar e convivência acadêmica. Aliás, o ex-reitor Ronaldo Pena e seus pró-reitores tinham esse entendimento e se comprometeram oferecendo área para esta construção, que chegou a ser reservada em croquis pela professora Maria Lúcia Malard, e obteve parecer favorável do professor Bismarck Vaz da Costa, que ficou na dependência de assinatura de uma unidade responsável. Chegamos a mobilizar parceiros externos à UFMG solidários em apoiar e financiar esta edificação, de características ecológicas.

O objetivo é trabalhar em uma perspectiva estratégica de expansão das metodologias consolidadas na bacia do Rio das Velhas para a bacia de todo o Rio São Francisco, em defesa da biodiversidade. Dessa forma, a liderança e a capacidade nucleadora de nossa Universidade serão construídas em redes de parcerias nacionais e internacionais na busca de soluções na área ambiental. Consideramos que nesses 14 anos conquistamos legitimidade social e acadêmica para apresentar esta proposta à UFMG e credibilidade para afiançá-la.

O todo é maior que a soma das partes, assim como a UFMG é maior que a soma de departamentos e unidades, e o Manuelzão é maior que os seus setores e atividades tomados isoladamente e fisicamente desconectados.

O desenvolvimento da ciência tem se dado pela revisão e reorganização permanente dos seus princípios e não pelo mero acúmulo dos conhecimentos. Esse é um dos princípios da transdisciplinaridade, sendo essencial uma convivência que permita essas discussões cotidianas em função de interesses científicos e metas. O Manuelzão está e sempre esteve aberto a seguir essa linha de trabalho.



Apolo Henriger Lisboa

Professor da Faculdade de Medicina e
coord. do Projeto Manuelzão

16 de agosto de 2011

Ética, Estado e Governo

Ética, Estado e Governo
Geocentelha 335

O Brasil, chamava-me a atenção o lúcido engenheiro, constroi tardiamente a infraestrutura, palavra que uso a contragosto, porque infraestrutura é a terra que recebemos com seus paus brasis de pé. A montagem de infraestrutura ao longo da história cobrou custos financeiros, ambientais, propinas, chibatadas. Recortado de canais, ferrovias, pontes, o mosaico europeu, compartimentado por Pirineus, Apeninos, Alpes, Cárpatos, fiordes, está multiconectado a ponto de parecer homogênea planície. Europeus não querem que façamos como fizeram, mas como acham correto hoje. Fazendo um EIA-RIMA retrospectivo sobre a Europa, seria de perguntar: Desmontariam tudo por suas teses? A velha Albion estaria disposta a rearborizar sua mesa de bilhar?

O Brasil, que só foi além de Paracatu pelas mãos de JK faz 50 anos, precisa costurar seu mosaico, e ambientalistas, aliás, na origem, muito justamente, montam a lei como cavalo de batalha, mas que lei é essa? Servirá mesmo ela a seus (nossos) propósitos? E nós? Povão ruidoso, alegre, cheio de asiáticos, europeus e sulamericanos, com o feito prodigioso da tolerância, que parece apagar naturalmente as mútuas mágoas originais dos imigrados. Mesmo tendo essa riqueza que a outros países falta, precisamos aprender com eles até nos erros. Ficamos admirados com a ordem com que japoneses enfrentaram a tragédia de Sendai. Mas vocês notaram? Ficou só Fukushima; ninguém se lembra mais de Sendai, onde morreram mais de 20.000 pessoas! A tragédia japonesa tem duas dimensões, a das perdas e a da interpretação: A cidade e centrais nucleares estavam expostas a evento geológico de alta previsibilidade. O acidente nuclear parece ter sido espoletado pelo tsunami, em fragoroso erro geológico de localização, mas atinge o coração desse modal energético como se apenas ele contivesse erro inerente, e os outros não; ele roubou a cena, impedindo qualquer movimento mundial mais visível no sentido de cobrar dos planejadores japoneses mais atenção, na localização das cidades, com ocorrências geológicas que tão bem conhecem.

Estado e governo, que o vai mudando supostamente segundo a vontade do povo, precisam compreender que o efeito de leis de ordenamento territorial que dispensam e afastam a ciência é muito mais desastroso do que  erros individuais, que terão sempre a presença de acertos para comparação de resultados e evolução da civilização. Se me pedissem minuta de código ambiental, trabalharia essencialmente na fixação de taxas de exploração máximas por compartimento territorial homogêneo, deixando aos técnicos para esse fim formados a aplicação do conhecimento na fixação de onde colocar a atividade exploratória nas propriedades. Palavras de ordem de governos sobre água e outros temas ambientais completamente incorretas do ponto de vista científico devem ser vistas como pura ignorância governamental ou como imperdoável desvio de comportamento ético?     



Belo Horizonte, 16 de julho de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho

Eng. Geólogo.

1 de agosto de 2011

O segredo do Vaso Fechado

O segredo do Vaso Fechado
Geocentelha 334

Sou fascinado pela gestão, ciência de sutilezas lógicas. A busca do melhor arranjo do trinômio necessidade-possibilidades-vontade confere-lhe fascínio, que a faz mais arte que ciência. O agrupamento de pessoas, criando a Cidade, é fruto da reflexão em torno do trinômio. Gosto da Cidade como tema, mas o princípio mais fecundo da gestão aplica-se ao planeta inteiro com maior clareza. Embora a rigor não, do ponto de vista físico, nosso planeta pode ser comparado a um vaso fechado onde se encontra toda a sustentabilidade material ou geológica. Isto coloca-nos diante de opções de gestão ante essa sustentabilidade. Se conhecemos  os compartimentos em que ela se encontra, podemos estabelecer regras de gestão, e o fizemos sobre terras como leis de ordenamento territorial conformadas à natureza das nações, de seu desenvolvimento e regimes. Elas deveriam ser capazes de estimular a busca do conhecimento e de impulsionar a reflexão em torno dele (possibilidades), de modo a bem regar uma vontade (vontade) para atender a necessidades reais da humanidade (necessidade).

Um punhado de técnicos trabalhando por mais de 30 anos descobriu o petróleo do pré-sal (nunca tantos deveram tanto a tão poucos, diria Churchill). Geologicamente esse petróleo foi formado pelos materiais orgânicos levados ao mar pelos rios entre o São Francisco e pelo menos o Itajaí, e foi armazenado nas estruturas geológicas formadas também pelo sedimento por eles levado e assentado sobre o estéril assoalho basáltico). Não queiram estados produtores, por circunstâncias geográficas, ficar com o bolo sozinhos. Se existe o famoso tiro no pé, é este o caso.

Ao vaso: Não queiramos excluir da urbanização topos de morros, onde amplos os melhores lugares para urbanizar, seguros, enxutos, alegres. Toda a lógica os recomenda para tal função, especialmente a do vaso fechado, porque se não colocamos a população nesses pontos seguros e sadios, colocá-la-emos nas encostas e fundos de vales inseguros (Teresópolis que o diga), encharcados, úmidos, insalubres, e entretanto indicados para outras funções. A humanidade que não experimenta não adquire experiência. Tem sido assim o Brasil e une a essa falta de experiência teimosia e arrogância. Se o leitor resolver dar agora uma olhada pelo Google Earth sobre a Europa, verá duas coisas interessantes: belíssimas cidades em topos de serras, e outras que bem exemplificam o corolário principal do vaso fechado (não precisamos ter tudo em todos os lugares), como inúmeras ruas de Viena, por exemplo, sem árvores, porque nelas a calçada é da bicicleta e do pedestre: O lugar das árvores, mais numerosas que as nossas, sadias, não morrendo de velhas, é nas ruas largas, praças, parques e vazados dos edifícios. Tenho minhas diferenças com a velha Europa, mas respeito sua experiência de 30 séculos construindo cidades. Que queremos se não experimentamos, nem imitamos o que deu certo?



Belo Horizonte, 16 de julho de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.


27 de junho de 2011

Renegado a civilização

Renegado a civilização
Geocentelha 333

Vejo com tristeza tudo isto: Deputado relator faz o possível para encontrar acordo de viabilidade para o Código Florestal. Está no papel dele, fazendo política, a arte do possível. Chego a ter simpatia por ele, que abre mão com desprendimento de princípios inerentes a sua filiação doutrinária. Tenho razões para criticá-lo, mas seria injusto quando merecem críticas mil lados em que se fragmentou a discussão. Fragmentou-se e amontoou-se em torno de questões ideológicas, corporativas, de visibilidades fisiográficas diferenciadas, de experiências culturais distintas. Em nenhum argumento vi traços de base científica a balizar posições. Não vejo esforço em usar exemplo alheio ao longo da história das civilizações, para fundamentar opções. Os únicos em que vejo possibilidade de ter razões consistentes são produtores rurais que usam o próprio braço, dirigem o próprio trator, tiram o próprio leite. Ouçâmo-los com respeito, mesmo nas situações comuns em que, a meu juízo, estejam cometendo absurdos por ignorância ou inércia.

Antes de outra consideração, percebo o Código, em alguns domínios fisiográficos, permissivo em termos de desmatamento, e com remendos que foi recebendo para conter os abusos, foi atingido pela platitude de proteger tudo o que restou, não importa o lugar, esquecendo-se de que o replantio numas 2 bolívias de áreas degradadas pode permitir remoções para urbanização ou permuta de posição na atividade rural, ainda que condicionando o desmatamento aqui ao plantio antecipado, com resultado comprovado, ali.

APPs de topos de morros e de altitude: todas as civilizações ocuparam topos de morros e cotas elevadas do terreno, sempre que outras condições o permitiram, como o acesso à água. Nenhuma fragilidade genérica justifica nossa opção, e a quem diga que acima de 1800 metros temos área muito pequena, respondo que, por isto mesmo, deveríamos ter nessas alturas experimentos civilizatórios que nos aproximariam das outras culturas de altas latitudes e altitudes. Devo então concluir que, se trocássemos de lugar com a América espanhola, renunciaríamos a tudo que está acima dos 1.800 m, inclusive uma das maiores cidades do mundo atual em população? Quanto a topos espaçosos, aí, no campo ou cidade, as condições geotécnicas e ambientais melhor atendem às exigências de segurança e qualidade para a vida humana, dentre elas a salubridade. É também onde mais facilmente se combate a erosão.

O prosaico inhame plantado à beira d’água, dentro da APP, pouco acima do lençol freático, nada mais pede para dar-nos boas e suculentas safras; afastemo-lo os famosos 30 metros, e, digamos, 5 metros acima do lençol freático, e veremos como pede água ou fenece logo. Captemos então água para dar-lhe e arquemos com o impacto ambiental disto! A lei assumiu-se como fim. Usurpou minhas prerrogativas de pensar.

Ninguém erra de forma tão canhestra impunemente. Teremos o país que merecemos.   



Belo Horizonte, 14 de maio de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo


3 de junho de 2011

Lugar de Plantar

Lugar de Plantar
Geocentelha 330

Plantaram os geólogos nossos antepassados ideias novas sobre a Terra, inclusive para provarem que ela era 750.000 vezes mais velha do que era ensinado ou imposto como dogma. Pelo menos desde o século V antes de Cristo geólogos, ostentando ou não o nome, têm-se esforçado por colocar algumas coisas no lugar. No dia do Geólogo, 30 de maio, não custa lembrar duas coisas: O que fizeram com coragem, cumprindo dever sagrado para com a humanidade e o tanto que não conseguiram fazer. Geólogos australianos e japoneses, por exemplo, conhecem a história geológica deixada por tsunamis com ondas de dezenas de metros de altura, mas não conseguiram convencer uma nação tão esclarecida quanto o Japão de que não se deve urbanizar a orla baixa nem colocar nela centrais nucleares. A orla baixa é muito boa para plantar arroz, nunca para morar. Não convenceram outros povos de outras necessidades como a de generalizar o conhecimento da terra através da geologia. Não por acaso, portanto, este século já deve estar chegando aos 10.000.000 de mortos por tragédias consequentes a acidentes geológicos e a meras escavações temerárias de uma vala ou um barranco.

Mas o tema de hoje é outro: É o princípio do vaso fechado, caro aos geólogos no estudo de temas  geológicos maiores como o metamorfismo e o metassomatismo. Esse princípio, entretanto, deveria ser reconhecido e aplicado por toda a humanidade na gestão em outras áreas. Diz ele que toda a sustentabilidade disponível está concentrada no vaso fechado da Terra. Se deixarmos, por exemplo, de consumir a baleia caçada em idade adulta, teremos de substituí-la por uns 200 bois, que, criados extensivamente em terrenos íngremes, destroem o solo, a casa ideal da água, e as conseqüências virão em cadeia: O processo geológico não repõe solo novo na velocidade com que é perdido.

O vaso fechado nos ajuda noutro ponto: Lugar de plantar inhame, banana, uma infinidade de hortaliças, o arroz em grande escala no Sudeste Asiático e alhures, é na presença de água exposta à superfície ou sub-aflorante, onde as plantações são naturalmente irrigadas. Esses plantios em absolutamente nada prejudicam a água, por exemplo, e também não as margens, porque o que destroi as margens não são esses cultivos, mas o boi, o carneiro, a capivara, e as enxurradas que vêm de cima. Se não os plantarmos aí, principalmente onde chove pouco, terão de ser plantados (vaso fechado) noutro lugar para onde a água será levada por gotejamento, em regos ou por aspersão, certamente com impactos ambientais também e às vezes maiores.

Se as cidades cultivarem brejos, terei de passar meus últimos anos longe delas. Com Dante, passado por Fábio: “No verão a saúde traz perigo; em vasto plaino o álveo dilatando, forma paul, das infecções amigo”, ou com Graciliano (Angústia): “Muitos agora tiritavam, batendo os dentes como porcos caititus, na maleita que a lama da lagoa oferece aos pobres”.



Belo Horizonte, 7 de maio de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.


16 de maio de 2011

Renegado a civilização


Renegado a civilização
Geocentelha 333

Vejo com tristeza tudo isto: Deputado relator faz o possível para encontrar acordo de viabilidade para o Código Florestal. Está no papel dele, fazendo política, a arte do possível. Chego a ter simpatia por ele, que abre mão com desprendimento de princípios inerentes a sua filiação doutrinária. Tenho razões para criticá-lo, mas seria injusto quando merecem críticas mil lados em que se fragmentou a discussão. Fragmentou-se e amontoou-se em torno de questões ideológicas, corporativas, de visibilidades fisiográficas diferenciadas, de experiências culturais distintas. Em nenhum argumento vi traços de base científica a balizar posições. Não vejo esforço em usar exemplo alheio ao longo da história das civilizações, para fundamentar opções. Os únicos em que vejo possibilidade de ter razões consistentes são produtores rurais que usam o próprio braço, dirigem o próprio trator, tiram o próprio leite. Ouçâmo-los com respeito, mesmo nas situações comuns em que, a meu juízo, estejam cometendo absurdos por ignorância ou inércia.

Antes de outra consideração, percebo o Código, em alguns domínios fisiográficos, permissivo em termos de desmatamento, e com remendos que foi recebendo para conter os abusos, foi atingido pela platitude de proteger tudo o que restou, não importa o lugar, esquecendo-se de que o replantio numas 2 bolívias de áreas degradadas pode permitir remoções para urbanização ou permuta de posição na atividade rural, ainda que condicionando o desmatamento aqui ao plantio antecipado, com resultado comprovado, ali.

APPs de topos de morros e de altitude: todas as civilizações ocuparam topos de morros e cotas elevadas do terreno, sempre que outras condições o permitiram, como o acesso à água. Nenhuma fragilidade genérica justifica nossa opção, e a quem diga que acima de 1800 metros temos área muito pequena, respondo que, por isto mesmo, deveríamos ter nessas alturas experimentos civilizatórios que nos aproximariam das outras culturas de altas latitudes e altitudes. Devo então concluir que, se trocássemos de lugar com a América espanhola, renunciaríamos a tudo que está acima dos 1.800 m, inclusive uma das maiores cidades do mundo atual em população? Quanto a topos espaçosos, aí, no campo ou cidade, as condições geotécnicas e ambientais melhor atendem às exigências de segurança e qualidade para a vida humana, dentre elas a salubridade. É também onde mais facilmente se combate a erosão.

O prosaico inhame plantado à beira d’água, dentro da APP, pouco acima do lençol freático, nada mais pede para dar-nos boas e suculentas safras; afastemo-lo os famosos 30 metros, e, digamos, 5 metros acima do lençol freático, e veremos como pede água ou fenece logo. Captemos então água para dar-lhe e arquemos com o impacto ambiental disto! A lei assumiu-se como fim. Usurpou minhas prerrogativas de pensar.

Ninguém erra de forma tão canhestra impunemente. Teremos o país que merecemos.   



Belo Horizonte, 14 de maio de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo