26 de fevereiro de 2011

O Paradoxo paulistano

O Paradoxo paulistano
Geocentelha 325

Alguém duvida de que São Paulo é a maior concentração de conhecimento e inteligência no Brasil? Maior concentração de poder econômico? Maior aparato institucional de universidades e centros de pesquisas? De que São Paulo tem a maior experiência de construção viária na serra do Mar? Eu não! É claro que, com exceção do último qualificativo, não desprezando outras experiências viárias na serra, São Paulo tem tudo isto a mais por questão de proporcionalidade populacional, turbinada por desenvolvimento mais consolidado. E agora? São Paulo pode resolver ou liderar a solução dos problemas urbanos da serra do Mar? São Paulo tem experiências comprovadas em Santos, Ubatuba, Caraguatatuba, Cubatão. A resposta então seria afirmativa. Pode, mas poder não garante que o consiga. E a dúvida não surge por questão puramente técnica ou de arranjo institucional (política), mas enraizada profunda e sutilmente no âmago da mais delicada das ciências aplicadas, a da gestão.

Corto agora para a primeira entrevista do saudoso Mário Covas, governador, a que assisti pela televisão ao assumir seu primeiro mandato. Respondeu a uma pergunta assim: “A solução do problema do Tietê é conceitualmente simples, concentrando-se essencialmente em alargar e aprofundar a calha”. Não obstante os esforços aplicados, a solução prometida parece um poente, que se aproxima de nós à medida que tentamos afastar-nos dele antes que as trevas nos cubram. Em janeiro vejo, na televisão, o governador paulista atual declarar: “Vamos dar continuidade à construção dos piscinões. O piscinão é a várzea moderna”. Talvez esteja aí uma ponta da explicação do paradoxo paulistano, pois quem faz a nova Imigrantes, plena de exemplos de boa técnica, e muito mais do que isto, da melhor filosofia concepcional e construtiva, tem capacidade de sobra para ter resolvido o problema das inundações de São Paulo, que ameaça sobreviver ao século 21! Não o fez porque não tomou conhecimento de descrição geológica do problema e muito menos nela inspirou a solução. O problema não é simples como disse o primeiro, e não se compadecerá nem com a sua solução e muito menos com a várzea moderna do segundo.

Na rodovia a liberdade de pensar na aplicação do conhecimento e da inteligência em busca da melhor solução é ampla e notória. Cidade é diferente, é construída dia a dia por muitos agentes mal coordenados. Precisa certamente de regulamentos especiais, que, contrariamente ao que fazem os atuais, estimulem o uso do conhecimento e da inteligência, na busca dos terrenos mais seguros para a habitação, dos meios mais eficazes de dispor e imobilizar as massas geológicas e de dar à água lugar e condições de entrada e de saída no sistema geológico conforme a sua feição. Sem o uso do patrimônio intelectual, formado a duras penas, agora não só o dos paulistas, o dinheiro do pré-sal e supercomputadores rolarão na lama como os matacões da serra.   


       
Belo Horizonte, 04 de fevereiro de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho

Eng. Geólogo.

Manifesto de geólogos de Minas Gerais sobre a gestão do risco geológico

Este documento foi escrito por Cláudia de Sanctis Viana, Edézio Teixeira de Carvalho, Luís Bacellar e Maria Giovana Parizzi, geólogos, presentes na sede da empresa GEOLURB Geologia Urbana e de Reabilitação Ltda, à avenida Getúlio Vargas, 668 Sala 1201, em Belo Horizonte, todos geólogos, em reunião secretariada por Fábio Henrique Dias Leite, também geólogo. Participaram da elaboração do documento os também geólogos Eduardo Antonio Gomes Marques, Frederico Garcia Sobreira e Leonardo Andrade de Souza, mediante o envio de contribuições prévias, todos sócios da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental ABGE. Todos estiveram por diversas ocasiões e canais em conexão com a comunidade geológica dos vizinhos estados de São Paulo e Rio de Janeiro acompanhando e participando das confabulações em torno dos catastróficos episódios de deslizamentos de terras, corridas de lama e inundações ocorridos na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, em especial nas cidades de Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis; de inundações que mais uma vez atingiram duramente a capital e outras cidades de São Paulo e cidades da região Sul do Estado de Minas Gerais, atingidas também por grandes inundações.

Manifestam, portanto: Irrestrita solidariedade às comunidades atingidas, pertencentes ou não aos domínios geográficos citados; encontram-se em permanente comunhão com todos os esforços em desenvolvimento nos citados centros e em outros espalhados pelo país, que objetivem o esclarecimento da sociedade brasileira a respeito de aspectos geológicos condicionantes ou determinantes dessas ocorrências catastróficas; participam da tomada de posição em relação a eventuais omissões de órgãos de governo que tenham contribuído para a maior gravidade das consequências; encaminham sua contribuição em direção a drásticas mudanças nos procedimentos das autoridades da União, Estados e Municípios em relação à gestão do RISCO GEOLÓGICO em suas diversas manifestações.

Estando cientes de que episódios como os aqui tratados ocorrem regularmente no território brasileiro, de longa data, inclusive já com cobertura abundante da imprensa, a exemplo dos de 1966/67, atingindo o Rio de Janeiro e a região serrana fluminense, os signatários não reconhecem relação de causa e efeito necessária entre mudanças globais do tipo aquecimento antrópico e esses episódios.

Reconhecem, todavia, como fatores do aumento da gravidade das conseqüências desses episódios:

  •  O crescimento rápido da população urbana em parte proveniente de migrações interregionais;
  •  os procedimentos eminentemente burocráticos dos processos de parcelamento e uso do solo, baseados em legislação inadequada e em parte na inobservância ou equivocada interpretação da lei;
  •  a ausência quase total de serviços geológicos contínuos nas esferas estaduais e municipais;
  •  as graves deficiências de formação cultural básica, caracterizadas por generalidades de natureza ambiental sem fundamentação geológica;
  • o profundo desencontro entre a Humanidade e a Terra, proveniente dessas deficiências, que impedem a consideração de que esta é constituída de componentes permanente (arcabouço mineral), transitório (flora e fauna) e itinerante (água), cada um deles idealmente devendo ter tratamentos inerentes a suas naturezas e estados de agregação;
  •  em relação ao componente itinerante acima, a gestão urbana da água praticamente reduzida às dimensões suprimento e drenagem, impedindo a exploração de possibilidades geológicas fecundas, de resultados comprovados, como a solução consorciada de disposição geologicamente orientada de resíduos inertes com o controle do escoamento pluvial urbano;
  • as graves carências de cunho sócio-econômico de grande parte da população;

Diante do acima exposto, e considerando as amplas possibilidades de contribuição do conhecimento geológico para que sejam drasticamente reduzidas as graves perdas materiais e humanas que acidentes geológicos previsíveis têm provocado, resolvem, assim, propor à sociedade brasileira em geral e às autoridades públicas em particular, dos poderes legislativo, executivo e judiciário, no que couber a cada um, as seguintes medidas:

1)      Determinação de remoção, em prazo a ser tecnicamente definido, de assentamentos geologicamente considerados inviáveis, com reassentamento em áreas reconhecidas como seguras em estudos geológicos adequados nos termos da Lei 6766/79;

2)      Implantação de intervenções geotécnicas e de urbanização nas áreas onde as situações de risco forem passíveis de minimização;

3)      Estabelecimento, em lei, de indenização em rito sumário por morte comprovada em acidente geológico, tomando por referência os níveis de indenização praticados internacionalmente, e por perdas materiais igualmente comprovadas indenização em rito normal, baseando-se em  valores de mercado, e condicionada à comprovação de inexistência de dolo por parte dos postulantes, sujeito às penas da lei;

4)      Revisão da legislação de ordenamentos territoriais, especialmente do Código Florestal, quanto à sua aplicação ao meio urbano, considerada incompatível com a natureza particular da Cidade, em especial por dispensar e até impedir a aplicação contextualizada do conhecimento geológico, além de gerar a formação de corpos de água potencialmente insalubres e estimuladores da propagação de vetores;

5)      Implantação de um sistema nacional de controle do risco geológico centrado no governo Federal, com ramificações estaduais e municipais vinculadas, à semelhança do Sistema Único de Saúde SUS, do qual constem, obrigatoriamente, pelo menos:


  • Programa articulado entre União, Estados e Municípios de levantamento geral de todos os documentos da cartografia temática relacionada, existentes no Brasil, Estados e Municípios e sua catalogação e geração de arquivos digitais para consulta de modo a comporem um banco de dados acessível aos encarregados de estudos locais;
  • Organização de banco de dados meteorológicos, climatológicos, de cartografia básica e temática em escalas reais apropriadas aos estudos regionais e locais, tornando-os, não importa sua fonte geradora, exceto os de confidencialidade garantida por lei, disponíveis para a consulta técnica local;
  • Estabelecimento de linhas de pesquisa geral ou vinculadas a particularidades regionais em programas de cooperação com universidades e centros de pesquisa conforme as suas vocações naturais e qualificação dos respectivos recursos humanos;
  • Criação de serviços geológicos estaduais; nos moldes dos já existentes, criação e aparelhamento de departamentos relacionados ao risco geológico conforme as suas manifestações regionais vinculadas aos aspectos geológicos, fisiográficos, vegetais e climáticos;
  • Garantia a todos os municípios de pequeno porte territorial e de população, por agrupamentos municipais, do serviço geológico local em permanente conexão técnico-científica com o serviço federal e o estadual.
Finalmente os signatários conferem o necessário realce ao caráter complementar e organicamente integrado das medidas propostas, inclusive a indenização em rito sumário, cada uma delas essencial ao melhor êxito do programa em benefício da população brasileira.





Belo Horizonte, 16 de fevereiro de 2010

Cláudia de Sanctis Viana
Edézio Teixeira de Carvalho
Eduardo Antonio Gomes Marques
Frederico Garcia Sobreira
Leonardo Andrade de Souza
Luís Bacellar
Maria Giovana Parizzi
Fábio Henrique Dias Leite – Secretário


16 de fevereiro de 2011

A Imprensa e a cobertura Ambiental

Caros amigos, coloco a disposição de vocês entrevista feita na Rede Minas.
O acesso ao material, dividido em duas partes, é feito pelo link abaixo.
Saudações,



Edézio Teixeira de Carvalho.




27 de janeiro de 2011

O vernáculo da Terra


O vernáculo da Terra [1]
Geocentelha 324

BOLT e outros em “Geological hazards”, 1975, expuseram plano de aviso para tsunamis do Pacífico. No rescaldo do ocorrido no Índico, tema recorrente foi o aviso de tsunamis. Vendedor da região, homem simples e prático, sugerindo reflexão mais profunda sobre o tema, disse: “Vocês avisam-me e eu subo no coqueiro. É isso?”. O plano do Ministro não consegue evitar conexão entre o sistema de aviso que parece ser a sua alma  e a preocupação do verdureiro. Não digo que não reduza óbitos, mas possivelmente com consequências colaterais terríveis, como a vivida por humilde senhora, em ocasião semelhante, na terceira geladeira, quando eu não tive mais de 4, duas em uso. Quem perde, compra e paga geladeiras em sequência, consegue sim pagar prestações justas de uma casa segura. Em janeiro de 1997 escrevi o artigo “A dorsal do risco”, inédito e atual, porque não avançamos na sua gestão e sei que regredimos naquilo em que alguns supõem termos avançado — a percepção, extremamente contaminada por grosseiras simplificações amplamente difundidas. Um exemplo? Às vezes “torço” para que algumas bocas de lobo não funcionem idealmente porque, quanto mais eficientes sejam, mais morte e destruição levam para os fundos de vale temerariamente ocupados. A dorsal do risco teria outro nome; dorsal aí seria a qualidade do programa, estruturado com a cabeça no governo federal (concepção geral, ciência básica, indenizações), espinha dorsal nos estados (organização da tecnologia regional) e os membros (ação executiva municipal). Organização semelhante (com os defeitos que tenha) ao SUS da área de saúde.

Linhas gerais: O governo federal forma conselho regionalmente representativo, que: Analisa e propõe imediata remoção de áreas de risco inviáveis; propõe áreas receptoras com as respectivas obras preparatórias; áreas marginalmente viáveis são objeto de programa mínimo elaborado pelo Conselho;  propõe revisão do aparato legal, inclusive indenizações por morte em rito sumário; estuda a vocação das universidades para formação de quadros (biólogos, geógrafos, geólogos e engenheiros) e geração de conhecimento. Estados que nada tenham estruturado regionalmente senão talvez CEDECs, com seu importante trabalho, teriam mapeamentos regionais articulados com o Serviço Geológico Nacional. Inúmeras cidades têm problemas idênticos e nenhuma capacidade de gerar mapas geológicos e cartas geotécnicas, e, creiam, são incapazes de recebê-las tecnicamente.

Vi casas que podem ser de profissionais liberais em locais cheios de avisos geológicos evidentes. É lamentável que cidadãos de instrução superior não percebam. Estão esquecidos de que a geologia é o vernáculo da Terra, sobre a qual precisamos aprender o mínimo para viver. A pedra imensa ao lado da casa rolou naturalmente há cem ou mil anos. Como ela, pode haver dezenas ou centenas esperando por sua vez. Lembremo-nos de que o melhor governo não pode tudo.         



Belo Horizonte, 22 de janeiro de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.



[1] O Tempo; Opinião; 27/01/2011; p. 19

17 de janeiro de 2011

Ignorância do Inocentes

Ignorância do Inocentes [1]
Geocentelha 323

Já me declarei ignorante em muitas situações, especialmente sobre minha saúde. Hoje estou em caminho mais seguro e agradeço aos médicos. Todos têm direito à ignorância, inclusive executivos públicos individualmente. Exceção é o ente governo. Este não. Além do imenso pesar pelos mortos e atingidos pelas chuvas, confesso grande frustração pela pregação infrutífera. Face ao risco geológico a humanidade é criança debruçada na janela: não distingue o décimo andar do térreo. A ignorância que leva ricos e pobres a residirem em áreas de risco ou mal preparadas para seu controle tem explicações, que deveriam ser levadas em consideração antes de concluirmos que foram punidos por ela. Misturada com ignorância, real ou não, pode estar presunção de que aquele ente, mais capaz, já avaliou a situação e deu-a como boa.

Tem acontecido de tudo: A água retoma seu lugar nos fundos dos vales porque todo ano perde um pouco do solo poroso das terras altas, como vimos na serra fluminense, e fica sem lugar lá em cima; então tem de descer encontrando no caminho ruas e casas implantadas no lugar errado. O processo geológico não tem como repor esse solo lá no alto até o ano vindouro. Conclusão: Nem é preciso chover tanto para que a tragédia se repita; pode chover até um pouco menos. É claro que nas altas encostas, o terreno pode ser naturalmente instável e geólogos foram formados especialmente para serviços como o de identificar e avaliar instabilidades naturais.

Erramos também na geração de situações de risco impensáveis: Pode uma barragem feita, entre outras coisas, para proteger cidades vale abaixo, fazer o oposto? Tanto pode que se repete frequentemente. Portugueses costumam reclamar dos espanhois, que segurariam o que podem das águas do Tejo em Alcântara e quando a chuva vem em excesso, soltam tudo com Lisboa rio abaixo. Franco da Rocha (SP) é repetição exata de Lisboa no caso. Uma árvore matou uma mulher. Árvores têm matado pessoas porque, de repente, começamos a pensar, com proverbial ignorância, que árvores devem viver até morrer, o que na cidade é um absurdo, porque a Cidade é ente criado especialmente para substituir a primeira natureza por uma segunda, podendo admitir elementos da primeira, quando necessários, convenientes, sadios, conviventes.

Para a vida perdida sob a árvore, para fluminenses, paulistas e mineiros mortos, temos referência de valor recente de indenização dada pela justiça, a ser paga pela empresa do voo Rio-Paris. Afinal as mortes são todas iguais. Se os governos brasileiros, especialmente os legisladores, fazem tantas leis absurdas, façam agora pelo menos uma que amenize a dor ilimitada dos que perderam entes queridos: Indenização em rito sumário com tramitação preferencial e reformulação orçamentária determinada pelo tribunal. Talvez assim os governos do Brasil resolvam observar as leis que eles mesmos fizeram (Lei 6766/79 Art. 3, incisos I e IV).  



Belo Horizonte, 13 de janeiro de 2011

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.




O Tempo; Opinião; 15/01/2011; p.19

7 de janeiro de 2011

Os filósofos morreram?


Os filósofos morreram? [1]
Geocentelha 321

Geólogo, busco enquadramento lógico na atuação profissional e referências fora da minha área porque a lógica é uma só em todos os domínios científicos — suas vestimentas é que mudam. Com alguma experiência acumulada, faço leituras críticas de temas recorrentes sobre a água. Repito 2 linhas de argumentos: A primeira diz que 70% da superfície da terra é água (oceanos, salgados). Descartando, além da água salgada, a das calotas polares e a subterrânea de difícil acesso, teria a humanidade acesso apenas a cerca de 0,001% da água planetária. Fica parecendo que o planeta foi mal projetado, com muita água inútil e pouca utilizável. Dois equívocos num só, primeiro porque a água oceânica nada tem de inútil, sendo a mais abundante reserva de água doce existente, contaminada por sal, que fica todo para trás na evaporação, a ponto de poder o paulistano beber hoje a água que evaporou ontem ao largo do litoral de Santos, e que, voltando ao mar (segundo equívoco) poderia tornar várias vezes ao ano à mesma função. A segunda afirmativa é a que associa a produtos a quantidade de água que sua produção consome. Na realidade a água atravessa o processo de produção do boi, da galinha e do repolho. Então, sejamos claros: o que é consumido é o processo de colocação da água à disposição de cada uso.

Então lembro-me do mito da caverna, alegoria imaginada por Platão em conseqüência da condenação à morte, por dizer a verdade, de seu mestre Sócrates: Lá, fora da caverna, à luz do dia, a realidade mostra que não existem monstros, pois em verdade o que assim parece são sombras dos próprios cavernícolas projetadas nas paredes da gruta pela fogueira acesa.

Então nem temos à disposição apenas 0,001% da água da terra, nem consumimos de fato uma gota d’água  na produção de qualquer coisa. Toda aquela gigantesca quantidade de água está à nossa disposição todo dia, e ela, na condição de residuária, de um modo ou outro, poderá voltar a uso útil em sua odisséia de volta ao mar, passando pela elaboração em série de vários produtos (reúso).

A insuficiência lógica daquelas afirmações está em não perceberem onde está o verdadeiro problema que de fato existe: a dependência total das águas pluviais da existência de quantidade de solo suficiente para abrigá-las numa estada idealmente prolongada sobre a terra. Essa quantidade de solos está em franca redução desde a revolução agrícola, por questão de lógica extremamente simples: Desmatando indiscriminadamente, e permitindo a erosão do solo, teremos sempre menor eficiência na infiltração da água no solo desmatado, e teremos sempre menos solo para receber a água, porque o ciclo da água que pede abrigo é anual, enquanto o tempo de reposição do solo perdido é milhares de vezes mais prolongado. Então a lógica nos diz que antes de faltar água, falta solo para recebê-la. Os filósofos citados estão vivíssimos e há um em cada ser humano que resolva pensar.
    


Belo Horizonte, 22/12/10

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.



[1] O Tempo; O.PINIÃO; 07/01/2011; P. 19


20 de dezembro de 2010

A Geologia e a Copa

A Geologia e a Copa [1]
Geocentelha 319

O título poderia ser “A CAPITAL E A COPA” ou “ESPÍRITO E EFEITO DAS LEIS”, cada um aproveitando aspecto sob o qual Belo Horizonte deve preparar-se para receber visitantes comuns, os jornalistas esportivos e os que virão atrás dos temas de interesse dos três turismos — lazer, cultura e negócios. Confesso que o segundo seria mais atrativo e o terceiro mais específico, mas minha luta pela disseminação do conhecimento geológico determinou a escolha.

Dizia ex-professor meu em 1970 que para a sociedade o geólogo era um estranho ser que descobria minérios e explicava terremotos, pontuando o distanciamento quase supersticioso das sociedades modernas em relação ao conhecimento geológico. Há razões profundas e sutis para isto, que não estão em causa neste artigo, mas lembro ao leitor que, por ser a geologia a ciência que reuniu os três pilares do conhecimento material  — física, química e biologia — para desvendar e pôr a serviço da humanidade os segredos da Terra, resulta, de não ser difundido seu conhecimento, grande prejuízo  para as populações brasileiras. Sem ofensa ao leitor, trago-lhe expressões de minhas preocupações a respeito, a primeira, citação de autoria não anotada, segundo a qual grave não é a falta do conhecimento, mas a indisposição de encontrá-lo. De fato, assim agindo a sociedade e o indivíduo são com frequência atingidos por processos e acidentes geológicos que ocorrem na terra com previsível regularidade. Outra expressão — a ignorância é o pedestal da arrogância — traduz-se na elaboração de leis que demonstram a arrogância do Homem sobre a Terra, exatamente o oposto do que se diz ao justificar tais leis, cujo erro maior é afastar a busca do conhecimento contextual, em total desacordo com a lógica e com necessidades reais das pessoas.

A edificação das cidades mobiliza naturalmente massas geológicas, que precisam ser imobilizadas, como se fez recentemente na parte alta da avenida N. S.ra do Carmo, próximo do Anel Rodoviário, o que deve ser exatamente repetido no escorregamento perigoso e feio da curva do Ponteio (“...para encobrir a feiura da rocha artificial que fere os olhos que chegam para ver a capital”; este autor em “Iniciação de um geodependente”).

Essas massas e seus equivalentes antrópicos (entulho) devem também ser dispostos para sanear brejos, do contrário Belo Horizonte corre o risco de apresentar àqueles jornalistas e torcedores tudo o que a cidade moderna deve evitar: Notoriedade pela feiura concentrada em pequenas mas estratégicas áreas; notoriedade pela feiura e imundície de áreas palustres; notoriedade por índices alarmantes de dengue. Notoriedade por estar, como o resto do Brasil, com dezenas de anos de atraso tecnológico em comparação com países periféricos da Europa e Ásia, dados como inviáveis em 1960.  

Homenageio o ex-aluno e colega, Professor da UFMG Carlos Maurício Noce, brilhante cientista, tão precocemente falecido.



Belo Horizonte, 19/11/10

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo.



[1] O Tempo; O.PINIÃO; 20/12/2010; p. 21


15 de dezembro de 2010

Mensagem

Agradecendo a todos que nos enviam suas mensagens, propomos que, sempre que possível, em nossas atividades profissionais: a) Retenhamos o máximo possível de solo e quaisquer outras massas geológicas nos pontos topograficamente mais altos do terreno; b) Disponhamos o solo e quaisquer outras massas geológicas em condição de equilíbrio estável, nos fundos de vales, onde poderão ser mais facilmente imobilizadas, mesmo que, para alcançar essa posição estável, parte desse material tenha de descer topograficamente um pouco; c) Como ação puramente simbólica, uma a mais entre tantas outras, levemos um dia, no próximo ano, 1 litro de terra da cota 500 para a cota 1000 ou da cota 1000 para a cota 1100. Assim, se levarmos simbolicamente 7 bilhões de litros de terra (1 por habitante) a uma cota em média 100 metros mais alta, teremos levado a essa cota mais alta um reservatório geológico de cerca de 1 bilhão de litros para acolher a água da chuva muitas vezes durante o ano, uma insignificância a indicar-nos o que devemos fazer para conter a voracidade da teimosa lei da gravidade. Equipe Geolurb cumprimenta a todos.



Belo Horizonte, 15 de dezembro de 2010

Edézio Teixeira de Carvalho
Geolurb - Geologia Urbana e de Reabilitação Ltda
(31) 32622722; 84762977
edeziotc@gmail.com; geolurb@gmail.com

27 de novembro de 2010

Chuvas dão surra na arrogância dos governantes

Chuvas dão surra na arrogância dos governantes [1]
Geocentelha 320

Saía para viagem à divisa Minas-Rio às 5:20 do dia 22/11. Chovia copiosamente. No percurso para apanhar um colega, minhas hipóteses de alagamento eram a Antônio Carlos com Américo Vespúcio/Bernardo Vasconcelos, ponto baixo do Anel Rodoviário a montante da UFMG e na Betânia. Acabei passando normalmente. Retornei no dia 24 de Além-Paraíba, encontrando o rio Pomba muito cheio com alagamentos entre Cataguases e Astolfo Dutra. Não pudera acompanhar senão por telefone as notícias de Belo Horizonte. Reflito pois mais genericamente: Qual é a chuva que mais inunda? É a que ocorre sob as seguintes circunstâncias: Chuva muito intensa, coroando período prolongado de chuvas intensas e contínuas. No caso, essa chuva, mesmo não excepcional, encontra o sistema geológico saturado, não receptivo, e a água passa em frente, sem infiltrar-se. É assim no mundo inteiro, com gravidade maior nos países das monções pela excepcionalidade das precipitações, da ordem de 10 vezes a intensidade em Belo Horizonte, e nos eurocentrados, Brasil incluído, por causa da Gestão. O Mississipi teve as piores inundações num período desses a jusante dos criminosos diques laterais inventados pelos franceses, que, alegadamente para proteger cidades marginais, forçam as águas a seguirem mais rapidamente rio abaixo.

Na base do faça como eu, que fiz eu? Residi sempre em lugares suficientemente elevados em relação aos leitos fluviais. Nos deslocamentos pela cidade, de carro, em tempo chuvoso, evito as vias ditas sanitárias e penso em pontos baixos como os acima citados; estando numa dessas vias em chuva inesperada, procuro dela sair o mais rápido possível; quando minhas filhas começaram a dirigir, recomendei enfaticamente a elas procederem assim, buscando sempre que possível vias transversais subindo. Numa chuva excepcional em que a cidade temerariamente ocupou os pontos mais baixos do terreno, como é notório no Brasil, chego a “torcer” para que bocas de lobo altas estejam em parte entupidas, porque o incômodo assim compartilhado pode salvar vidas!

Num país diverso como o Brasil as arrogantes legislações sanitária e ambiental apoiadas secularmente no pedestal da ignorância sobre as condições geológicas e até sobre processos completamente independentes do fator geológico, inflexíveis, conseguem complicar mais ainda a questão. Como profissional, que faço? Fiel a meus deveres perante a sociedade, tenho defendido sempre o espírito da lei, quando bom, mas combatendo incansavelmente, creiam, o texto burro e inflexível, gerador de efeito oposto ao pretendido, lamentando não ter agora em meu auxílio a verve inigualável de Nelson Rodrigues, cronista do cotidiano, adepto de nossa alegria de viver, de nossa genialidade futebolística, mas crítico cáustico de nossas irresponsabilidades sociais, por ele atribuídas aos “lorpas da objetividade”. Caro leitor: Se a lei dispensa que pense, por amor do que preza, pense!



Belo Horizonte, 25/11/10

Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo.



O Tempo; Opinião; 27/11/10; p .21


12 de novembro de 2010

O País que Espera Dilma

O País que Espera Dilma [1]
Geocentelha 316

Em 2002 escrevi o artigo “O país que espera Lula” (http://www.geolurb.blogspot.com/). Outro país agora espera Dilma. Falei de questões territoriais na crista da onda, o desmatamento na Amazônia, e o Aquífero Guarani, apresentado como novidade, embora familiar aos geólogos desde o século XIX; coisas opostas, uma ameaça sobre a natureza e uma promessa da natureza.  O país mudou e Lula jogou papel saliente nas mudanças, em verdade confundindo-se umas em que seu protagonismo foi decisivo com outras em que, hábil, ele terá roubado a cena. Geologicamente o pré-sal é descoberta que começou ainda quando eu estava na Petrobrás, onde em 1972 acompanhei a perfuração de poço que testava estruturas de domos de sal ao largo de São Sebastião. Poucos se lembram do aquífero Guarani, ofuscado pelo pré-sal, embora continue tão importante quanto foi.  

Temas de raízes ou conexões geológicas estão aí. Na ocasião falei em transposições, e veio uma contra conveniências geológico-territoriais flagrantes. Por falar de temas geológicos, lembro que assisti estarrecido à concessão do prêmio Nobel da Paz por um livro mais inconveniente do que a suposta verdade que nele se proclama. Lembro-me também do destaque dado ao disparate geológico-ambiental, no plano simbólico, do enterro de baleia jubarte de 10 toneladas em terra firme, quando rebocadores poderiam arrastá-la 500 metros mar adentro, proporcionando àquela massa vital a oportunidade gloriosa da completa reciclagem que desde seus ancestrais geológicos a biosfera pratica e experimenta.

Que a Presidente escolha para o ambiente ministro não-executivo, de perfil semelhante ao de um Euclides da Cunha para, em paralelo com o executivo, promover com a sociedade brasileira leitura crítica profunda da fundamentação científica de nossas leis de ordenamento territorial em geral e ambientais em particular, para sua revisão a curto prazo, introduzindo um mínimo de recurso científico verdadeiro nos seus fundamentos e aplicação, livrando-nos da obediência devida a leis absurdas.

Na vertente executiva que tente colocar ao lado de espírito preservacionista, cientificamente orientado,  revolucionário espírito reabilitador do território em temas de que dou exemplos: Estudos das condições de estado da madeira submersa em Tucuruí e em Balbina, facilmente extraível e industrializável em barcaças autônomas nos respectivos lagos; desassoreamento, por bombeamento ou sifonamento, de reservatórios de hidrelétricas, separando areia para a construção civil, de silte e argila para a revitalização agrícola de chapadas de solos exauridos, reduzindo a abertura de novas lavras; reabilitação de voçorocas como as de Cachoeira do Campo – MG no programa de revitalização da bacia do São Francisco, enfaticamente prometida. Introduzir em geral o experimentalismo no manejo territorial na Mantiqueira e serra do Mar para proteger o meio rural e as cidades dos respectivos vales.       



Belo Horizonte, 02 de novembro de 2010

Edézio Teixeira de Carvalho
Eng. Geólogo



[1] O Tempo; Opinião; 12/11/2010; p. 19